A DITADURA DAS CALORIAS – José Delfino



A DITADURA DAS CALORIAS –

Às vezes penso como é encarada a relatividade do comportamento das pessoas às mudanças de imagens ao longo do tempo. Lembram da diferença da anatomia dos corpos retratadas em pinturas na era barroca e na atual ( sendo Botero uma honrosa exceção) ? Me fica sempre a impressão de uma dialética inconsciente ( se é que isto existe ) impregnada em nós.

O que se almeja de “progresso” estético, se faz em tempo real sempre de modo mínimo, parcial e quase imperceptível. Com o tempo a coisa se avoluma e se modifica, mas sempre de modo lento, volátil e passageiro. Dialética inteligível que se remete a uma mistura de conceitos em que se complementam Hegel e Marx , por exemplo, quando a conceituam como a verdadeira e única da razão e do ser, identificados um ao outro num processo de descrição e constatação exata do real.

Mas o que se diz é uma coisa, o que se acha, se interpreta, ou se pratica, outra. Existiria uma razão básica pra isto ? Talvez o inconsciente e a memória histórica das características desigualdades ponderais inseridos nos extremos da glutonia e fartura, e da fome em excesso no mundo , modificando a consciência das pessoas. As perspectivas dos bem nutridos, dos malnutridos e dos desnutridos são totalmente diferentes.

Na sociedade dos paupérrimos e famintos só a sobrevivência, inserida na necessidade de uma mínima nutrição, conta. Na sociedade dos abastados, ao contrário, algo de bizarro ocorre. Ela cria obesos malnutridos ( a forma de desnutrição dos ricos ), mas não os toleram. Daí o aparecimento do conceito da lipofobia, da obsessão da magreza e da rejeição, quase maníaca, dos obesos hoje em dia.

De qualquer maneira, os gordinhos estão sempre a merecer juízo favorável junto a uma grande parte da população . A maioria os encara como mais francos, mais amáveis, com mais empatia do que as pessoas magras. Neles até as rugas de preocupação quase desaparecem pelo estiramento da pele . Constatação que não era bem encarada por Lombroso. O tal médico, inclinado aos pensamentos do positivismo francês e italiano ao materialismo alemão, ao evolucionismo inglês, que criou uma escola que correlacionava influências atávicas às aparências e atitudes das pessoas, e que foi pro beleléu .

Não é de hoje que tais impressões abundam na ficção e na vida real . O bonachão Sancho Pança, Churchill e Orson Wells e seus charutos, a popularidade muito superior do papa gordo – João XXIII – comparada a do seu antecessor e magro – Pio XII – . Claro está que a magreza também já foi vilã e tida como sinal de maldade e ambição desmedida, como bem ilustra Shakespeare em “Júlio César” e o alheamento do Dom Quixote descrito por Cervantes, pra se ficar só em dois exemplos.

A verdade é que na maioria dos países desenvolvidos uma vasta proporção da população sonha ser magra, e vive gorda. Nos países subdesenvolvidos, o contrário. Ambas vivem, na prática, essa terrível contradição. Eu digo que não ligo mas estou sempre a lutar com a balança . O pequeno obeso, cuja esperança ainda não virou cirúrgica, tende a se comportar assim, em eternas e inglórias batalhas contra o fator genético.

Portanto, como revide, caio no campo do irreal e invisto em metáforas: que vá às favas a tal da dialética, que pare de importunar os incautos, que vá bugiar ou pentear macacos. Enfim, que vá plantar batatas.

 

José Delfino – Medico, poeta e músico
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