PITOMBA –

Houve um tempo na infância em que eu voltava da escola em ônibus escolar. Ficávamos na frente da escola aguardando ele chegar, enquanto fazia o percurso por mil colégios da cidade. Eu era a última a chegar em casa, depois dele atravessar todo o bairro. Era divertido!

Naquela época eu não pensava em ser produtiva, em estar perdendo tempo no trânsito enquanto podia estar fazendo isso ou aquilo. Não havia celular para nos cobrar tanto! Para me cobrar!

Na frente da escola se vendia pitomba. Na época dessas frutinhas era uma verdadeira febre, todo mundo comprava. Como mamãe me dizia: eu não era todo mundo! Era proibida de comprar qualquer coisa fora da cantina. Então, nada de pitomba. Era meu sonho sair com um cacho de pitomba no ônibus escolar… não realizei…

Um dia, enquanto esperávamos o bendito ônibus, vi uma professora correndo. Foi de encontro a uma colega e apertou ela por trás. Voou um caroço de pitomba. A menina estava engasgada, roxa, sem ar. Nenhuma criança ao redor percebeu. A professora sim. Tia Djazilda, minha professora da primeira série.

Salvou a menina.

Eu entendi o medo de minha mãe com a inocente pitomba…

Semana passada fui comprar frutas. Vi a pitomba. Vi a lichia. Lembrei da frente da escola e da garota roxa. Pensei em como os sonhos são engraçados.

Hoje não sonho comigo andando de ônibus carregando um cacho de pitombas. No máximo sonho com um pote de lichias ao meu lado enquanto assisto a algum episódio de The Pitt.

Que bom que a vida é assim. O tempo passa. Os sonhos mudam. Podemos ficar presos ao passado ou nos jogar nos braços do presente, aguardando um futuro melhor.

Nós escolhemos.

Escolhi a lichia…

 

 

Bárbara Seabra – Cirurgiã-dentista, autora de “O diário de uma gordinha” e Escritora

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