O VINHO NOVO E A RENOVAÇÃO DO HOMEM INTERIOR

“Mas o vinho novo deve ser posto em odres novos; e ambos se conservam. E ninguém, tendo bebido o vinho velho, quer logo o novo, porque diz: O velho é melhor.”

(Lucas 5:38–39)

A palavra do Senhor, quando pronunciada, jamais se limita ao tempo em que foi dita; ela atravessa os séculos como luz que não se apaga. Na imagem simples do vinho e dos odres, o Cristo revela um mistério profundo sobre a transformação do homem e o processo do Reino de Deus no coração humano.

Nossa passagem pela terra não é fortuita nem estéril: é um caminho pedagógico da alma, no qual, por meio de experiências, dores, aprendizados e encontros, somos lentamente conduzidos ao despertar da consciência para aquilo que verdadeiramente somos em Deus. “Até que todos cheguemos à unidade da fé e ao pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito” (Efésios 4:13).

Nesse caminhar, recebemos novos ensinamentos, novas luzes e novas oportunidades de crescimento. Contudo, o coração humano tende a apegar-se ao que já conhece. O hábito gera conforto; a tradição, segurança; o antigo, uma falsa sensação de controle. Por isso, abandonar os velhos esquemas do pensar, do crer e do viver revela-se, muitas vezes, doloroso e desafiador. O “vinho velho” — aquilo que já foi assimilado — parece-nos mais palatável do que a novidade que exige conversão.

É nesse contexto que irrompe o Cristo-Jesus, não como remendo do que era antigo, mas como plenitude e cumprimento da Revelação. Ele não veio apenas reformar comportamentos, mas renovar o homem desde o íntimo do ser. Sua palavra é vinho novo: viva, poderosa, transformadora. Contudo, tal vinho não pode ser contido em odres endurecidos pelo legalismo, pelo orgulho espiritual ou por uma fé meramente exterior. “Se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17).

Antes de Jesus, o homem via-se, em sua relação com Deus, principalmente como servo. O Cristo, porém, eleva-nos a um grau mais alto de comunhão: “Já não vos chamo servos… mas tenho-vos chamado amigos” (João 15:15). E mais ainda: faz-nos filhos, herdeiros, participantes da vida divina, para que, como Ele mesmo declarou, “onde Eu estou, estejais vós também” (João 14:3). Essa elevação espiritual exige, inevitavelmente, uma ruptura com o homem velho, escravizado pelo medo, pela culpa e pela separação.

A metáfora dos odres novos, portanto, não é mero ensinamento moral; é um chamado à metanoia — à mudança profunda da mente e do coração. Jesus nos adverte, com misericórdia e realismo, sobre a resistência humana à novidade do Reino. O velho é confortável; o novo exige fé. O velho se repete; o novo transforma. O velho acomoda; o novo liberta.

Vencer tais resistências implica despojar-se de conceitos ultrapassados, de preconceitos arraigados e de divisões que fragmentam o corpo humano e espiritual. Implica aprender com Cristo o amor que não discrimina, o perdão que não calcula, a misericórdia que não exclui. É permitir que o Evangelho nos conduza para além do bairrismo, do partidarismo, das separações artificiais, rumo à unidade do Espírito e à fraternidade universal.

Viver o vinho novo é aceitar a vida nova: uma existência reconciliada com Deus, com o próximo e consigo mesmo. É deixar-se conduzir pelo Espírito, que renova todas as coisas, e experimentar, já nesta vida, os sinais do Reino que não terá fim.

Somos vida eterna em germe. Somos filhos do Altíssimo por vocação e destino. Despertar essa consciência no coração humano foi — e continua sendo — a grande missão do Cristo, o Senhor da nova Aliança.

Amém.

 

 

Arca da Sagrada Aliança – Movimento Cristão

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