O HUMOR CEARENSE: INTELIGÊNCIA, RESISTÊNCIA E ORGULHO, DE CHICO ANYSIO A UMA GERAÇÃO QUE FAZ O BRASIL RIR –

O Ceará é, sem sombra de dúvidas, uma das maiores potências do humor brasileiro. Em cada esquina de sua capital, Fortaleza, ou nos recantos do interior árido, ecoa uma risada que não é apenas sinal de alegria, mas também de resistência, de crítica social e de genialidade popular. O povo cearense, dotado de uma percepção aguda da realidade, aprendeu a rir da própria dor, a subverter o sofrimento com inteligência e a fazer do riso um caminho de liberdade.

Essa escola do riso encontrou em Chico Anysio o seu mestre maior. Nascido em Maranguape, Chico foi muito mais que um humorista: foi dramaturgo, cronista da vida brasileira, intérprete do povo em suas mais diversas faces. Criou mais de 200 personagens que refletiam, com graça e agudeza, os tipos sociais, os vícios políticos, a hipocrisia institucional e a beleza do cotidiano simples. Seu humor não era apenas entretenimento: era pensamento. Era, muitas vezes, denúncia embalada em gargalhada.
Na emblemática entrevista a Marília Gabriela, em 1998, Chico revelou que nunca precisou de um palavrão para fazer o Brasil rir. Preferia a inteligência à vulgaridade. Disse, com orgulho, que seu humor vinha da alma nordestina, da seca que forja o caráter, da simplicidade que lapida a mente. Revelou também que se emocionava com o carinho de jovens humoristas cearenses que o tratavam como mestre, e não era para menos: ele abriu portas e construiu pontes que permitiram que o Ceará se tornasse o berço de uma nova geração de gigantes do humor nacional.

É dessa semente que brotam nomes como Tom Cavalcante, Tirullipa, Rossicléa, Adamastor Pitaco, Ciro Santos, Eduardo Sterblitch e tantos outros que continuam a transformar o cotidiano em espetáculo, o absurdo em riso, o sofrimento em arte. Cada um, à sua maneira, herda a verve de Chico, semeada em um solo fértil de talento e autenticidade.

Mas o humor cearense não está apenas na televisão ou nos palcos. Ele está nas calçadas, nas feiras, nos ônibus, nas mesas de bar. Está no povo que faz da adversidade um trampolim para a criatividade. O cearense é, antes de tudo, um contador de histórias. E não há história melhor do que aquela que termina com um sorriso.

O Brasil deve muito ao Ceará nesse quesito. Quando as palavras faltam, quando o país parece mergulhado em desesperança, é ao riso cearense que muitos recorrem. Porque nele há alívio, mas também lucidez. Há crítica, mas também acolhimento. Há, sobretudo, coragem. Chico Anysio nos ensinou que rir é, muitas vezes, a forma mais nobre de pensar. E os humoristas cearenses continuam sua missão: fazer pensar, emocionar e transformar. Porque rir, quando vem da inteligência e do coração, é uma forma de resistência. E nesse ofício, o Ceará é mestre.
Natal-RN, 28 de julho de 2025.

 

“O humor é a mais séria das manifestações humanas.”, Chico Anysio

 

 

 

 

Raimundo Mendes Alves – Advogado, procurador aposentado e vereador em São Gonçalo do Amarante-RN

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