NATAL ENTRE O FORTE DOS REIS MAGOS E OS CALÇADÕES: UMA REFLEXÃO SOBRE DURABILIDADE E RESPONSABILIDADE –
Em uma visita recente ao Forte dos Reis Magos e ao deslocar-me pelos calçadões à beira-mar de Natal, fui levado a ponderações que vão além do que é visível na paisagem e do que revela a história.
Erguido em 1598, o Forte sobrevive há mais de quatrocentos anos. Ele aguentou a força do mar, a corrosão da brisa marinha, os ventos e as mudanças climáticas. Sua construção robusta, projetada para resistência e permanência, ultrapassou séculos e continua a ser um ícone da origem de nossa cidade.
Enquanto isso, os calçadões modernos da orla, desenvolvidos com a tecnologia atual, vivem em constante reforma devido à força do mar. Melhorias contínuas, consertos de estrutura e manutenções recorrentes tornaram-se parte da rotina da cidade.
A comparação é clara: como uma estrutura do século XVI consegue manter-se tão impressionante, enquanto construções recentes mostram sinais de desgaste em pouco tempo?
É notório que as condições atuais trazem desafios ambientais mais complexos, como a erosão da costa aumentada e as alterações climáticas. Não é uma questão de ignorar esses fatores. Contudo, é fundamental reconhecer que as edificações antigas eram projetadas com uma visão de longevidade. Elas foram feitas para durar.
Atualmente, muitas obras públicas parecem surgir da necessidade de rapidez. Prazos curtos, orçamentos restritos e rapidez na entrega. Quando o planejamento não leva em conta a dinâmica ambiental da orla de maneira adequada, o resultado aparece em forma de fissuras, recalques e a necessidade de novas intervenções.
O mar não alterou sua essência. Ele continua a avançar e recuar, desafiando os limites. O foco está em como planejamos, construímos e supervisionamos nossas obras.
Cada intervenção repetitiva consome recursos públicos adicionais. Cada conserto prematuro é um aviso sobre a necessidade de se ter maior rigor técnico e responsabilidade administrativa. Construir adequadamente não se resume apenas a erguer edificações; é uma questão de honrar o dinheiro público, a cidade e as gerações futuras.
Entre o Forte e os calçadões, existe mais do que um mero contraste arquitetônico. Há uma lição silenciosa sobre planejamento, responsabilidade e uma visão voltada para o futuro.
Natal merece obras que sejam projetadas para perdurar, e não apenas para serem inauguradas.
Raimundo Mendes Alves – Advogado e procurador aposentado
