Hoje vou deixar para os outros o trabalho de escrever sobre coisas aborrecidas da vida. É que ele se aproxima. O país vai parar mais uma vez. Ah, o carnaval !
A alegria num exercício um tanto sedentário. Empachado e empanturrado de gula. De som e fúria. Necessário, dizem uns. Desafiador do edifício moral, afirmam outros. Ocasião em que a dança , as fanfarras nas casas, calçadas e ruas acontecem .
Zenão de Cítio, falava da busca da resiliência, da calma diante da dor , e da distinção clara entre o interno e o externo. Eis a ocasião propícia para pô-las em prática.
Cabeças desanuviam-se . Sólidos e líquidos descem e vencem os corpos , que abundam descobertos . Mas é que o calor do verão no lado de baixo do equador ajuda muito.
Danam-se alguns dias o pão e o vinho como símbolos da crucificação e morte de J C. Terror , para os criadores das normas cristãs. Mas crucificados vivemos nós todo santo dia.
Ao entrarmos no âmago dialético deste prazer, notamos que os estoicos colocam o pé no freio como o fazem os caras do DETRAN, quando propagam “se beber não dirija”.
Claro está, os hedonistas o recomendam e os aristotélicos procuram arranjar algum espaço em toda essa confusão. Mas dão eles todos com os burros n´água ao concordarem que o prazer, como estado de consciência, é indefinível.
Daí os livros estarem cheios de definições causais que abarrotam a mente e , no fundo, não têm quase importância alguma no contexto carnavalesco tupiniquim, parece. Não foi à toa que os Deuses em sua sabedoria, dita infinita, dividiram bem o lugar das coisas.
A matéria no intestino repousará. Naquela região inferior situada bem perto da zona do sexo. Para que não se misturem as erógenas com as zonas aéreas das cabeças bêbadas.
Em meio a toda essa simbologia do alto-baixo, puro-impuro, espírito-matéria, a verdade é que na prática vivemos o imperialismo dos nossos estômagos.
Não sou eu quem digo, não, está na “República” de Platão. O contraditório estaria também nas “Geórgias”, onde se lê que a cozinha é uma arte de mentira, pau a pau com a retórica, mas vá levar isso a sério no carnaval brasileiro… culturalmente, impossível !
E vivam todas as nossas racionalizações copiadas à maneira europeia e caribenha, no uso dos rastafáris maranhenses, nos bois-caprichosos mais acima no mapa, na forma do rotundo rei momo, nos pierrôs e seus pompons e golas franzidas, nos arlequins e colombinas.
Daí o que escrevo , com preocupante insistência, abrigar um quê de irracionalidade: mude de mulher, de partido, de clube de futebol, ou de religião, se for o caso. Só nunca troque o carnaval brasileiro por qualquer outro do mundo. Além do mais , só se vive uma vez na vida. Vão fundo. Carpe Diem!
José Delfino – Médico, poeta e músico
