MENTOLADO, MAS NEM TANTO –
Estava eu, deitada na minha rede, embalada pelo balanço suave e pelo cheiro de liberdade recém-nascida, refletindo sobre as últimas 24 horas. Um dia inteiro sem ele. Sem aquele velho conhecido que, por quase cinco anos, voltou a fazer parte da minha vida — depois de um hiato de vinte e cinco. Sim, vinte e cinco anos de silêncio, de ausência, de paz. E então, como quem não quer nada, ele reapareceu. Nos primeiros onze anos, nossa relação foi intensa. Eu era jovem, ele era constante. Estávamos grudados, inseparáveis. Mas aí veio o rompimento. Um corte limpo, sem drama. Eu segui. Ele ficou. E por um bom tempo, achei que tinha vencido.
Mas como todo “bom” ex que não sabe a hora de evaporar, ele reapareceu. Disfarçado, nostálgico, com aquele jeitinho de quem só quer conversar. No começo, era só uma lembrança. Depois, uma presença. E quando dei por mim, ele já estava instalado, confortável, como quem paga aluguel com suspiros e dependência. Ele me possuía. Literalmente. Estava nas minhas entranhas, no meu hálito, na minha rotina. E eu, boba, deixei. Até que começou a sufocar. A relação virou um cárcere aromatizado com menta. Eu já não respirava, só tossia. Já não vivia, só acendia. Foi então que, como da primeira vez, eu disse: chega. Não quero mais. E dessa vez, sem olhar pra trás. Porque, convenhamos, quem precisa de um parceiro que te deixa sem fôlego — e não no bom sentido?
O cigarro é aquele ex que aparece na sua vida como quem bate na porta sem ser convidado, trazendo flores murchas e promessas recicladas. Ele jura que mudou, que agora é diferente, que vai te dar prazer sem dor. Mas basta abrir a janela para perceber que o cheiro continua o mesmo: fumaça, cinza e arrependimento. Ele é o tipo de ex que acha que pode te reconquistar com charme barato. “Só um traguinho, vai… só uma lembrança dos velhos tempos.” Como se fosse romântico reviver uma relação que te deixou com falta de ar e olheiras de quem passou noites em claro. É como aceitar jantar com aquele ex que nunca pagava a conta e ainda reclamava do garçom.
Esse danado é insistente. Ele não entende indiretas, não respeita bloqueio, não se intimida com portão elétrico. É o stalker das relações tóxicas: aparece em festas, em bares, em esquinas, sempre com aquele olhar de “você não consegue viver sem mim”. E, por um tempo, você até acredita. Afinal, ele sabe se disfarçar de satisfação. Mas prazer que vem com gosto de cinza não é prazer, é cilada. Se fosse uma pessoa, o cigarro seria aquele ex que chega atrasado, pede desculpas esfarrapadas e ainda quer dormir no seu sofá. Ele não traz flores, traz fumaça. Não traz futuro, traz tosse. Não traz companhia, traz solidão aromatizada com nicotina. E o pior: ele é ciumento. Não aceita concorrência. Se você tenta se apaixonar por corrida, yoga ou meditação, ele aparece para lembrar que “ninguém te dá o mesmo prazer que eu”. É o típico ex que não suporta ver você feliz sem ele.
Mas, convenhamos, que tipo de prazer é esse que vem acompanhado de falta de ar? Que tipo de amor é esse que te deixa com cheiro de cinzeiro? Que tipo de relação é essa que te cobra caro e só te entrega dependência? Dessa vez, não tem volta. O cigarro pode até tentar se disfarçar de nostalgia, mas já não me engana. Ele é como aquele “finado” que você bloqueia em todas as redes sociais e ainda assim insiste em criar perfil falso para te seguir. Só que agora, eu não caio mais. Se ele aparecer, vai encontrar a porta trancada, o portão com cerca elétrica e um aviso luminoso: “Aqui não entra fumaça. Nem saudade.” Porque saudade de ex tóxico é igual cigarro: parece que dá prazer, mas só deixa gosto amargo.
Faz só 24 horas que o deixei. E já me sinto leve, limpa, livre. Como se tivesse tomado banho de mar e deixado ele boiando longe, sem chance de volta. Nem pense em atravessar meu caminho de novo. Seu charme mentolado não me engana mais. Pode ir feder em outra freguesia. O cigarro é aquele antecessor que se acha irresistível, mas que, no fundo, só fede. Ele acredita que pode voltar a qualquer momento, como se fosse o protagonista da minha vida. Mas não passa de figurante mal escalado, com fala repetitiva e cheiro de derrota. E eu, finalmente, percebi: não preciso dele para respirar. Não preciso dele para viver. Não preciso dele para escrever. Se quiser insistir, que insista em outra freguesia. Porque aqui, o romance acabou. E, como todo bom final de crônica, deixo registrado: “Proibido fumar. Inclusive saudades”.
P.S: Sucumbi!
Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, crô[email protected]
