LAPSOS DO FUTURO –
Que bom seria poder espiar no olhar do outro um lapso do futuro, daqueles flashes rápidos como um raio de sol entre nuvens carregadas. Sentir, de antemão, as sensações que ele nos traria: as boas, quentes como um abraço inesperado… longo, e as ruins, frias como uma porta batendo no vento. Saber, quiçá, quanta energia e tempo valeria a pena investir ali, antes de mergulhar de cabeça.
Mas aí reside o veneno da ideia: seria péssimo pular o processo de descoberta. Não dar o máximo, atenção, energia, tempo, sem forçar a barra, mas deixando que o motor engate naturalmente. Que ruim seria vislumbrar o destino sem trilhar o caminho, sem nos tornarmos quem somos no percurso. Aprender a agir pelo outro e por si, nem mais nem menos; segurar o peso quando o parceiro fraqueja e se deixar segurar quando as pernas bambeiam; perceber o que se constrói devagar, ver crescer com orgulho. Um lapso solto, sem o suor da jornada, seria como uma foto sem história: desnecessária, incapaz de revelar a melhor escolha.
Estamos cansados do refrão: “deu certo, enquanto durou”, mas cada oportunidade é um bilhete único para algo novo: viver diferente, ser diferente, corrigir os erros do passado. Nada é seguro. Há sempre a chance de fracasso ou acerto. Relacionamentos são empreendimentos arriscados, sem garantias de retorno.
A passos curtos ou largos, a intensidade não altera o rumo, mas afina a visão dos erros e acertos, sensibiliza os momentos. Ela flui, nunca estática, já sabemos. Não desistir, nem se apegar à pauta do futuro, nos torna corajosos e disponíveis. Um relacionamento não exige pessoas prontas, mas dispostas a se encaixar como peças de Lego: observando o encaixe perfeito, e a próxima virá. Cada um é único, sem espaço para comparações, abrindo portas para possibilidades inéditas.
A sabedoria entra em cena: nem todo mal-entendido grita instabilidade. Ele carrega sua própria tábua de salvação, se pensado a dois. Há soluções a testar. O outro não é o par ideal projetado na cabeça; é ele, diferente, real. Pode até ser o ideal, mas percebido no dia a dia, não em fantasias. Nada de frustrar expectativas que nunca deviam existir.
Conviver é ler o outro como um livro aberto: notar reações sem palavras, mapear gostos, desgostos, manias, qualidades e defeitos. Com essa observação fina, transforma-se o ninho em paz, poupando desgastes naturais desnecessários. Inseguros? Sim, mas os trilhos estão aí para construir carinho e parceria admirável.
Ah, o Amor… O que sustenta o tempo e o futuro. Só eles dirão se brotará, sutil como um sopro no coração, durante a própria construção. Não demora: é autêntico.
Arriscar-se é o gesto supremo. Comecemos por ele, o primeiro tijolo.
E enquanto coloco esse tijolo, ecoa na mente “Build”, dos Housemartins: a trilha perfeita para erguer algo sólido do zero.
E talvez reste a pergunta mais difícil, aquela que não se responde sem silêncio: em que momento, ao pensar demais em si, deixei de enxergar o outro? Ou, ao pensar demais no outro, deixei de existir para mim? Quantas relações não se perderam nesse desequilíbrio sutil, nesse movimento invisível de afastamento que não nasce da falta de admiração ou sentimento, mas do excesso de medo, da confusão entre entrega e anulação? Talvez não tenha sido o destino que separou caminhos, mas a incapacidade de sustentar, ao mesmo tempo, dois centros: o meu e o do outro.
Tudo o que vale a pena precisa ser construído…a dois.
Tatyanny Souza do Nascimento – Psicanalista e escritora
