FELIZ HOJE – 

Entramos numa loja de chocolates e fui diretamente buscar trufas de panetone – as melhores. Flavinho pegou uma coisinha e outra, alguns mimos para presente e, ao sairmos, a funcionária nos diz:

Agradecemos meio constrangidos com a expressão não costumeira. Saímos em silêncio e quando chegamos a uma distância razoável para o comentário, olhamos um para o outro e questionamos:

Em qual momento isso virou uma forma de comunicação?

Fiquei refletindo, para variar. Gosto do hoje sendo um presente feliz, mas desejar só o hoje? E o amanhã? Ele não conta?

Onde o “bom dia!, boa tarde!, boa noite!” deixou de ser uma boa escolha? Ou mesmo o “obrigada!, sucesso com o presente!” ou outras similares? Aliás, “sucesso com o presente” para mim é uma das frases mais enigmáticas que existe! Primeiro, volto a questionar o que é sucesso – lá vou eu de novo! – e, mais profundamente, o que significa sucesso com o presente. Sucesso por que a pessoa gostou? Sucesso por que eu gostei de ofertar? Sucesso se ela não usar a etiqueta de troca? Sempre tenho vontade de perguntar aos vendedores o que eles querem dizer com isso, mas de última hora prefiro me silenciar. Não sei se é uma boa escolha, porque continuo encafifada com a expressão.

Igual ao tal FELIZ HOJE.

Queria saber se é norma da empresa. Suspeito que seja, pois voltamos lá alguns dias depois. Mais trufas de panetone. Outra funcionária nos atende. Ela também termina o atendimento com o “feliz hoje”. Saí pensando se houve uma reunião com o CEO e toda a equipe administrativa discutindo em um arranha-céu de São Paulo, todos os homens engravatados e as mulheres com saltos 15 centímetros, regados a um ar-condicionado gelado e xícaras de café fumegante, enquanto olhavam a cidade cinzenta pela parede de vidro e preenchiam um quadro branco enorme com um funcionário anotando as palavras sugeridas num brainstorming apoteótico sobre qual expressão seus funcionários em todo o Brasil devem usar após as compras realizadas. Depois de horas de discussão, o FELIZ HOJE ganhou de lavada sobre o “doce sucesso com o presente”. Alguns foram para casa felizes, pois sua sugestão foi acatada. Outros saíram aborrecidos, pois acharam a expressão vazia. Porém, todos – todos mesmo – receberam o memorando dizendo: “a partir de hoje, todas as compras devem ser finalizadas com um sorriso cordial e a expressão FELIZ HOJE”.

Só as compras, pois entrei mais uma vez na loja sem, desta vez, comprar nada, só para testar a tal expressão. E não me desejaram um feliz hoje, nem ontem, nem amanhã.  Só terei a esperança de um hoje feliz após uma compra consumada…

 

 

 

 

Bárbara Seabra – Cirurgiã-dentista, autora de “O diário de uma gordinha” e escritora

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