ESTÔMAGO INTELIGENTE –

Na infância meus pais me obrigavam a ir ao dentista todas as férias. Não sei como, anos depois, escolhi a odontologia por profissão. Enfim, o mundo gira, os papéis se invertem e agora como adulta, sinto-me obrigada a fazer mil exames e consultas médicas para acompanhar a saúde. Nas férias!

Assim, lá estou eu fazendo uma ultrassonografia, enquanto levo uma bronca da médica pelo meu fígado estar gordo. Se fosse só ele… Mas, tudo bem. Ela falando sobre quais alimentos eu deveria cortar, eliminar, expurgar, excomungar, ou qualquer outro verbo que remova totalmente eles de minha dieta constituída por sabores deliciosos amados por qualquer criança de cinco anos, mesmo tendo dez vezes essa idade.

Então, não se dando por vencida, ela me dá uma receita de omelete, uma de crepioca e uma de um pão feito com polvilho e ovo. Não quis ser indelicada e dizer a ela que não como ovo. De jeito nenhum! Cru, frito, cozido, mexido, mollet, tocando sanfona… Nenhum ovo!

Eu estava numa posição que só queria que o exame terminasse rápido e a conversa se prolongando estava me deixando meio que desesperada.

Enfim, ela disse que enganava o estômago e o cérebro comendo uma xícara de pipoca com leite em pó. Saciava sua vontade de doce. E a crepioca com pasta de amendoim ela conseguia dividir em duas refeições (como assim?) e matava a ânsia de doce. Eu balançava a cabeça de cima para baixo para cada sugestão dela, mas por dentro a cabeça girava velozmente de um lado para outro querendo dizer: meu estômago é super inteligente, QI altíssimo, não é enganado facilmente com uma xícara de pipoca e uma colher de chá de leite ninho!

Não é mesmo!

Acho incrível essas pessoas que dizem: comi três uvas-passas e passou meu desejo de doce. O meu não passa com uva-passa, banana-passa, ameixa-passa, maçã-passa. Passa nada! Ou então: tenho na geladeira sempre uma barra de chocolate quebrada em pedacinhos de 5 gramas. Pego uma e divido em três partes para comer ao longo do dia. Que dia curto vocês têm? Eu gosto da barra de chocolate de 80 gramas que, aliás, era de 120, passou para 100, para 90 e agora míseros 80. E ainda querem dividi-la em 16 partes e depois cada uma delas em 3? Eu não estou ensinando divisão para um filho! Eu quero comer chocolate!

Enfim, dizem que a ignorância é uma dádiva. Se meu  estômago fosse um pouquinho mais ignorante talvez ele aceitasse essas enrolações, mas ele sabe bem o que é um doce, o prazer que me dá e, mais ainda, a alegria se restaurando em minha vida.

Por isso, continuo seguindo aquilo que acho mais ético: não mentir para ele! E assim somos felizes…

 

 

Bárbara Seabra – Cirurgiã-dentista, autora de “O diário de uma gordinha” e Escritora

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