DE SEIS, VIREI QUATRO –
Esses dias eu sonhei que me partia em seis pedaços, não de uma vez, mas aos poucos, como quem se abre por dentro e nem percebe. E cada um desses seis se dividiu em mil. Um exagero, eu sei, mas sonho gosta de nos levar ao impossível, pelo menos na vida real. Tem devaneios que gostam de ser “o cara”, de sufocar pra depois ensinar a respirar. Testar nossa resistência em plena letargia.
Passei boa parte dessa dormida divagando, vagando, tentando juntar cacos. Andava por ruas que não pareciam com aquelas da minha infância, tinha também uma misturada do bairro em que resido com lugares que nunca estive, era uma espécie de trocadilho entre esquinas e memórias, o nada com nada fazia um certo sentido. Não sei bem, mas, posso ter sentido o cheiro de pão da padaria velha, visto o portão azul que não existe mais, meu rosto espalhado em fragmentos refletido numa vitrine… Havia aflição, daquelas urgentes, de relógio acelerado e também angústia grudenta, como roupa molhada no corpo.
Em algum momento, não sei precisar exatamente, da caçada, entendi que não doía a perna, nem o braço, nem a cabeça, doía num lugar que não tem nome no mapa do corpo. Aquele arrocho que sufoca por dentro, com certeza, era no espírito, mas dizer “alma” às três da manhã soa dramático, não é mesmo? digamos então que o latejo era o cantinho onde a gente guarda o que não conseguiu dizer em vida desperta.
Fui juntando o que dava pra juntar. Encaixe aqui, desencaixe ali, desiste daquele canto porque corta o dedo e não vale o sangue. No fim de tudo, só consegui recolher quatro partes. Dei/senti falta das outras duas? Estranho, mas, não! De um jeito ou de outro algo me mostrava que elas já não me serviam mais, simples assim. Tipo aquele casaco bonito que, provado de novo, revela que é quente demais pro meu inverno de agora. Deixei onde estavam. Sem discurso, sem ritual. Eu e o sonho aceitamos numa boa, pois, sonhos raramente pedem luto quando algo deixa de servir, ele só segue, e eu não podia deixar escapar ensinamentos vitais antes do meu despertar.
Quase no acordar, percebi uma companhia. Não vi rosto, ombro ou voz. Era só um passo ao lado do meu, mesmo ritmo, sombra amiga que não me puxava nem atrasava, apenas confirmava que eu não estava sozinha naquele trabalho de colar caquinhos. Quando a madrugada já empalidecia as cortinas, acordei e fiquei ali, quieta, escutando o ventilador como quem espera tradução.
Fiquei reflexiva, sim, mas sem pressa de lição, apenas presa a enxurrada de perguntas que eu mesma me fazia. Será que o sonho queria me dizer algo? Se sim, não era recado encapado, era matéria espalhada no chão pra eu mesma dar nome. Disruptura? Talvez. Quebrar paradigmas? Pode ser. Recomeçar e deixar pra trás o que não cabe? Com certeza. Mas, acima de tudo, parecia um convite metafísico simples, um sussurro em minha mente me dizendo que reconstruir-se não é recolher tudo, e sim escolher os pedaços que ainda conversam com você. O resto, deixa-se, viram casa de formiga, ninho, estrada, esquecimento. E está ótimo assim.
De seis, virei quatro.
Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, crô[email protected]
