CARNAVAL: A FESTA MAIS EMPREENDEDORA DO BRASIL, E A ECONOMIA QUE SEMPRE VOLTA AO MESMO LUGAR –

O Brasil pode até se dividir em muitas frentes ao longo do ano, mas há um período em que o país inteiro parece operar sob uma mesma lógica produtiva: o Carnaval. Não é apenas festa. É planejamento, investimento, risco, execução, marketing, improviso e, sobretudo, circulação intensa de dinheiro. Em cidades como Natal, Salvador e Rio de Janeiro, o espaço urbano se transforma em uma grande plataforma temporária de negócios. O ambulante que estoca bebidas, a costureira que vira noites finalizando fantasias, o músico que fecha agenda com meses de antecedência, o motorista que calcula dinamicamente seus ganhos, o dono da casa que aluga por temporada, o influenciador que negocia presença em camarotes: todos estão empreendendo.

Talvez o Carnaval seja o maior laboratório de empreendedorismo popular do Brasil. Ele revela algo potente sobre nossa cultura econômica: sabemos identificar oportunidades, sabemos mobilizar rede, sabemos vender experiência. Há inovação constante nas ruas. Pequenos blocos operam como startups culturais. Marcas disputam atenção em ativações criativas. Trabalhadores informais criam micro estratégias de precificação quase intuitivas. É a economia viva, pulsando sem manual.

Mas, ao mesmo tempo, o Carnaval expõe uma engrenagem menos celebrada. Embora milhões circulem, a estrutura maior de captura de valor raramente muda. Grandes patrocinadores concentram visibilidade. Donos de imóveis capturam a alta sazonal. Plataformas digitais retêm percentuais. Intermediários estruturam contratos. O dinheiro gira com velocidade impressionante, mas tende a retornar aos mesmos centros de poder econômico. A festa democratiza o esforço, mas não necessariamente democratiza o acúmulo.

Esse fenômeno não é exclusivo do Carnaval. Ele ecoa na lógica do autoemprego contemporâneo. Muitos trabalham, poucos acumulam. Empreender torna-se sinônimo de sobreviver, não de estruturar patrimônio. Há uma euforia produtiva que dura alguns dias — ou alguns meses — e depois cede lugar à incerteza da próxima temporada. Trabalha-se intensamente em ciclos curtos, fatura-se rápido, consome-se rápido, e a ausência de planejamento estrutural mantém o empreendedor sempre no ponto de partida.

O Carnaval poderia ser apenas um retrato da desigualdade. Mas também pode ser visto como um ensaio de transformação. Se ele já demonstra capacidade de mobilização econômica massiva, por que não ampliar a permanência da renda nos territórios que a produzem? Por que não fortalecer redes locais de fornecedores, estimular cooperativas, investir em educação financeira e gestão para quem vive da sazonalidade? A pergunta estratégica deixa de ser quanto a festa movimenta e passa a ser quanto ela transforma.

Talvez a maior lição do Carnaval não esteja na explosão de consumo, mas na revelação de nossa potência empreendedora. O brasileiro sabe criar valor. O desafio está em construir estrutura para que esse valor não se dissolva ao fim da música. Celebrar é importante. Estruturar é urgente.

 

 

 

 

 

Jussara Goyano – Comunicadora, mentora de empreendedores e profissionais liberais. Apresenta o Podcast JG TV, no YouTube e no Spotify (http://bit.ly/JGTV_YT). É autora de Autoemprego: quando ser seu próprio chefe vira uma armadilha (2025, Ponto A Editora, 64 páginas – em pré-lançamento)

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *