CAMINANTE, NO HAY CAMINO, SE HACE CAMINO AL ANDAR –

(Tradução: “Caminhante, não há caminho, se faz o caminho ao andar. ”)

A cada virada do ano, o ritual se repete como um sino ecoando na escuridão: listas de promessas rabiscadas em cadernos, aplicativos de produtividade piscando notificações e redes sociais inundadas de juras sobre reinventar a vida: “Em 2026, pretendo emagrecer 10 quilos, aprender um idioma, mudar de emprego e finalmente encontrar o amor perfeito.” Metas ousadas, ambiciosas, que pintam o futuro como um mapa pronto, com rotas retas e destinos luminosos. Mas e se o poeta espanhol Antonio Machado nos sussurrasse, bem no meio dessa euforia coletiva: “Caminhante, não há caminho, se faz o caminho ao andar.”?

Essa linha, extraída de Prosa en Campos de Castilla (1912), não é apenas um verso melancólico; é uma provocação filosófica profunda, ecoando o existencialismo de Sartre e o estoicismo de Epicteto. A verdade é que não há trilha pré-desenhada na paisagem da vida. O caminho emerge dos passos dados, das curvas imprevisíveis, das pedras que tropeçam e das flores que brotam no improviso. No frenesi das resoluções de Ano Novo invertemos essa lógica: em vez de caminhar para construir, fixamos metas como se o universo devesse se curvar a elas. E quando o inevitável acontece: a pandemia que bagunça planos, a crise econômica que devora empregos, o corpo que resiste à dieta milagrosa. Surge a frustração, o autojulgamento cruel. Por quê? Porque colocamos a esperança da vida inteira nessas promessas, como se o Ano Novo fosse um contrato divino.

Psicologicamente, isso tem raízes na neuroplasticidade que tanto fascina a ciência contemporânea. Nosso cérebro adora narrativas lineares, dopamina de conquistas rápidas, mas a realidade é caótica, moldada por fatores fora do controle: genética, relações interpessoais, contingências sociais. Estudos como os de Daniel Kahneman, Nobel de Economia em 2002, mostram que superestimamos nosso poder de previsão, o viés de planejamento otimista nos leva a metas irreais, gerando um ciclo de fracasso e desmotivação. No Brasil de 2026, com inflação persistente e desigualdades agravadas, quantos não se sentem sufocados por listas que ignoram o contexto? A frustração não vem do não cumprimento, mas de depositar na meta a essência da felicidade.

 Machado nos convida a uma sabedoria literária mais humilde. Em seus Proverbios y Cantares, o poeta caminha, sem bússola, deixando apenas a pegada tênue para trás. É uma metáfora para a existência autêntica: metas plausíveis não como fins absolutos, mas como bússolas flexíveis. Proponha-se caminhar 30 minutos por dia e não maratonar 42 km na primeira semana. Leia um capítulo por noite, sem prometer devorar bibliotecas. Essas pequenas ações constroem o caminho, tecendo neuroplasticidade real, sinapses que se fortalecem no hábito, não na ilusão.

Epicteto diria: foque no que depende de você, o passo de hoje, não no destino distante. Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra, celebraria o “caminhante” que ama o risco do devir, transformando obstáculos em degraus. Não se frustre com o que escapa: o emprego perdido pode abrir veredas inesperadas; o amor não encontrado, espaço para autodescoberta. A esperança da vida não mora nas metas, mas no ato de caminhar, na crônica diária que escrevemos com os pés.

No Ano Novo marcado por fogos e promessas em família, resgatar Machado é um ato de resistência poética. Em vez de listas rígidas, cultive intenções soltas: “Vou caminhar mais atento ao presente.” O caminho se faz ao andar, e nele reside a verdadeira liberdade: não em chegar, mas em partir, dia após dia, deixando pegadas que, quem sabe, inspirem outros.

Na psicanálise freudiana, metas grandiosas ativam o superego punitivo, criando expectativas irrealistas que colidem com o Real lacaniano: o incontrolável da existência. Lacan, no Seminário 10, descreve o desejo como “essência do homem”, sustentado por uma falta estrutural, nunca saciada por objetos. Quando o Ano Novo falha: crise econômica, traições relacionais, surge a frustração: não pelo não cumprimento, mas por depositar no Outro (o calendário, a sociedade) a demanda de completude. Estudos clínicos confirmam: resoluções ambiciosas provocam “efeito inverso”, com ansiedade e autocrítica.   O caminhante busca rota, mas o poeta nega, propondo dialética do andar: pegadas que se confundem com o caminho, como na análise onde o sujeito constrói sua verdade no devir, não em metas ritualizadas. Lacan ensina que o desejo pulsa na direção do que escapa, alcançá-lo esvazia, mudando o rumo.

Na clínica do desejo, metas plausíveis constroem o sujeito, aceitando o incontrolável como sulco no mar. Alcance o inesperado. Viva o inédito, colecione a capacidade de lidar, da melhor forma, com surpresas. Faça disso suas metas.

 

 

 

 

 

 

 

Tatyanny Nascimento – Psicanalista e escritora

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