Este texto nada tem a ver com “A NOVEMBRADA”, manifestação popular ocorrida em Florianópolis em 30 de novembro de 1979, durante a visita do presidente João Figueiredo.
Pois bem. Esta é uma história extraída da vida real.
Marieta tinha trauma do mês de novembro, pois quando tinha quatro anos, no interior onde morava, viu um irmão seu, aos sete meses, morrer, em novembro, por falta de assistência médica. Poderia ter acontecido em qualquer mês, mas aconteceu no mês de novembro. Também viu outros parentes morrerem no mês de novembro. Para completar a sua cisma, viu também seu marido morrer, subitamente, no mês de novembro. Por uma consequência natural, Marieta não gostava do mês de novembro.
Certo dia, Marieta conversava em família sobre coisas da vida, quando, de repente, foi interrompida por Joel, seu noivo, que entrara “pé ante pé”, como costumava fazer, quando queria ouvir as suas conversas. Ele não suportava que a noiva, viúva há alguns anos, relembrasse o passado, e falasse sobre entes queridos que já haviam partido. Sua voz forte ecoou na sala:
-“Está aí você, mais uma vez, com suas novembradas…”
Era exatamente o mês de novembro, quando fazia seis anos do falecimento do marido de Marieta, Antonino.
Essa explosão de brutalidade fez ruir por terra o respeito e a confiança que Marieta nutria por Joel. Ele, mais de uma vez, já havia demonstrado ser grosseiro e dominador. O fato de ser bem empregado e ganhar bem nada representava, diante da sua grosseria e falta de educação doméstica. Marieta já discutira com ele sobre isso, mas, dessa vez, ele ultrapassou todos os limites. Não respeitou a presença dos familiares da noiva e a tratou grosseiramente, deixando-a envergonhada.
Marieta caiu na realidade e viu que o seu casamento com Joel seria um desastre, pela incompatibilidade de gênios e pela clara diferença da educação doméstica que os dois haviam recebido.
Afinal, ela estava conversando normalmente com familiares, e falava do passado, sem perceber que ele havia entrado sutilmente.
Na realidade, Marieta jamais deixaria de relembrar pessoas queridas, que já haviam partido, deixando muita saudade. Dessa vez, ela não perdoou Joel e pôs um ponto final no noivado, não aceitando mais as suas desculpas esfarrapadas de que agia assim por amor e ciúme.
Os familiares que estavam presentes ficaram chocados com a brutalidade do noivo da prima, mas se mantiveram calados. Nesse dia, surgiu da parte de Marieta uma grande decepção, ao perceber que Joel era desprovido de bons sentimentos. Naquele mesmo dia, terminou o noivado, não aceitando mais as costumeiras desculpas, quando Joel jurava que iria se controlar e deixar de ser ciumento.
Há pessoas egoístas e intolerantes, que contestam qualquer conversa com a qual não concordem. Não sabem ouvir ninguém e querem ser donas da verdade. Não suportam ouvir qualquer lamentação e relembranças sobre pessoas queridas que já partiram e deixaram saudade.
Quem se irrita ao ver alguém lamentar o vazio e a saudade deixados por um ente querido, não merece compaixão quando cai no sofrimento. São pessoas “feitas de ferro”, frias e indiferentes ao próximo, capazes de viverem apenas momentos “felizes” descartáveis, que jogam no primeiro lixo que encontram à sua frente. O sofrimento alheio causa a essas pessoas frias e insensíveis apenas irritação. Solidariedade humana, para elas não existe.
O egoísmo desse tipo de pessoas é tão intenso, que ao ouvirem um filho pequeno chorar, elas tentam abafar o pranto, tapando-lhe a boca com a mão. Essas pessoas são torturadoras e não tem noção de compaixão ou solidariedade humana.
Joel, o noivo que Marieta arranjou, anos depois de viúva, era muito ciumento e não suportava quando ela puxava esse assunto. Não admitia que ela falasse de saudade nem dos mortos. Apelidou as conversas de Marieta sobre fatos tristes e antigos, ocorridos no mês de novembro, de “novembradas”. Cortava qualquer conversa sua relacionada com essas ocorrências e quando ela insistia no assunto, ele dizia:
– LÁ VEM VOCÊ COM AS SUAS NOVEMBRADAS.
Certo dia, farta da estupidez de Joel, Marieta protestou:
– Eu não suporto mais a sua ignorância e falta de sensibilidade!!! E ponto final.
E o relacionamento terminou aí.
As más escolhas são responsáveis pelo sucesso ou fracasso de um relacionamento.
Violante Pimentel – Escritora
