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DE HUSTON E JOYCE –

Todo ano era um acontecimento, em Dublin, o jantar das irmãs Morkan e sua sobrinha Mary Jane. Naquela noite, comemorando o Dia de Reis, estavam presentes como sempre os parentes, amigos e convidados: o sobrinho Gabriel Conroy e sua esposa Gretta, vindos da Inglaterra, três alunas de piano de Mary Jane, O Sr. Browne, o barítono Bartell D’Arcy, A Sra. Malins que vivia com a filha na Escócia, seu filho Freddy, beberrão contumaz e Molly Ivors, que deixa o grupo antes da ceia para participar de um comício republicano.

Todos bebem, dançam, falam, ouvem, discutem, às vezes bobagens, com toda aquela reserva anglo-saxã que têm direito. O Sr. Grace* recita “Donald Og” um poema Irlandês do século VIII; Mary Jane toca uma peça ao piano; Conroy repassa a um canto o seu discurso de agradecimento, tia Julia interpreta uma canção de Bellini. Todos à espera de sentarem à mesa, de elegância frugal que desmentia a procedência, e de um cardápio opíparo: peru e legumes, maçãs e peras de sobremesa, e como arremate, um “yorkshire pudding” a ser flambado na presença de todos. Entre mortos e feridos, escapam todos.

Acabada a festa, de volta ao hotel, Conroy pergunta à Gretta a razão do silêncio dela, a partir de um certo momento da festa. “Foi Lass of Aughrim”, diz ela. “O que há com essa música, porque você chora?”. “Foi alguém que conheci, cantava sempre essa música, me esperava ao relento, no frio; queria ver-me antes de partir para o internato. Disse-lhe que fosse embora, que a chuva iria matá-lo. Lembro-me bem dos seu olhos. Dizia-me que não queria viver”.

Umas batidas leves na vidraça fazem Conroy virar-se em direção à janela. E antecedendo-se aos créditos, que rolarão lentamente ao som de “Lass of Aughrim”, agora em harpa, como que prenunciando o que é feito hoje nos filmes de Woody Allen, Huston aposta e ganha. Faz finca-pé na interação simultânea de imagem fixa e texto. Vê-se uma tomada em que a câmera vasculha em plano elevado uma paisagem campestre, lúgubre e deserta de Dublin no inverno de 1904; a imagem como se fosse uma natureza morta sem as tigelas de barro e as frutas.

E, ao mesmo tempo, ouve-se na íntegra a récita do final do conto: “Caía neve por toda a sombria planície central, nas montanhas desprovidas de árvores, nevava com brandura sobre o Bog of Allen, e mais para oeste, nevava delicadamente sobre as ondas escuras e rebeldes de Shannon. Caía também no cemitério solitário da colina onde jazia Michael Furey. Acumulava sobre as cruzes inclinadas e sobre as lapides, sobre as pontas das grades do portão, sobre os espinhos. Sua alma desfalecia-se lentamente enquanto ele ouvia a neve precipitando-se no universo, placidamente precipitando-se, descendo como a hora final sobre os vivos e os mortos”.

* O único personagem que aparece no filme, mas não está no conto original. Foi uma invenção de Huston, e do filho Tony, co-autor do roteiro, para permitir a leitura do poema “Donald Og”, em homenagem a Joyce, que sempre recitava para Nora (sua esposa) com quem teve um tempestuoso relacionamento.

 José Delfino – Musico, poeta e escritor

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