ALGUNS FAMOSOS FOLIÕES CARNAVALESCOS DO PASSADO NATALENSE –
Em nossas pesquisas em leituras em antiguíssimos jornais no centenário Instituto Histórico e Geográfico do RN, vimos que as primeiras aglomerações festivas, aconteceram com o mela-mela dos velhos Entrudos portugueses, ao redor da nossa Igreja Católica da Praça André de Albuquerque, nossa primeira Catedral, depois indo a festa mais organizada vai para a Rua da Palha, atual Vigário Bartolomeu, da Cidade Alta. Impossível enumerar todos os grandes ‘foliões momescos’ da nossa cidade do Natal. Aqui vou mencionar alguns famosos nomes só de homens boêmios, alegres e festivos carnavalescos, já citados no meu livro, em primeiro volume (2016) – ‘Antigos Carnavais da Cidade do Natal’, (1875-1945). Dizem que nem todo boêmio é carnavalesco, mas todo folião é chegada a uma boemia…
Nos anos 10/20 – O poeta e memorialista Diógenes da Cunha Lima, parecendo ter vivido os carnavais ao lado de Ferreira Itajubá (1875-1912), emocionou-se muito quando nos falou desse lado carnavalesco do seu admirado poeta que ia dos circos as agremiações carnavalescas: – Gutenberg, Ferreira Itajubá sozinho, fazia um carnaval! E outro carnavalesco ‘até os ossos’ é historicamente mencionado pelo nosso mestre folclorista e memorialista Câmara Cascudo (1898-1986), que evoca uma das maiores lideranças das antigas agremiações de ruas em Natal dos bondes e poucas animações festivas, o tradicional: … Zé de Benvinda… conheci-o na praia de Areia Preta em 1940. Magro, alto, cor de tição apagado, cabeça longa, olhos amarelos, dedos finos, voz estridente nas toadas dos carnavais mortos… setentão batido. Fora baliza dos Vasculhadores, em 1908… ‘Baliza’ revirando piruetas entre duas alas de calça azul, camisa amarela, bonete branco. Sucesso na Rua da Palha, da Conceição, dos Tocos, Sarmento. No carnaval seguinte, menos gente. Ia passando para os grupos mais aparelhados. Chegou tempo em que os ‘Vasculhadores’ desistiram do folguedo. Só restou fiel, o último devoto… mestre ‘baliza’ de pernas dobradiças, guardando o estandarte em casa. Não tem ninguém? Não vem ninguém? Tem eu! Vou sair!… o estandarte na mão, saiu fazendo letras, feliz, agitando a bandeira dos ‘Vasculhadores’… Zé de Benvinda era os ‘Vasculhadores’! Saiu sozinho com a bandeira! cantando, gritando, rindo” Sozinho! Com a bandeira!… (Ontem, págs. 26/27, 1972).
Anos 20/30 – E um poema histórico de autoria do poeta Jaime Wanderley (1897-1986), intitulado – ‘Meu carnaval”, recorda antigos foliões dos carnavais antigos em Natal: – … Joaquim Turco Moreira, Xibiraia, Antônio Elias, Theodorico, Joca do Pará, Cavalcanti Grande – vestido de rei momo… Deolindo Lima… João Gotardo, João Estevam, Ferreira Itajubá, Zé Gomes – o Teté, Noronha, Anax, Rodolpho Maranhão, Melquíades Barros e Zé Pinto – José Mariano Pinto… E o citado Deolindo Lima (1885-1944), é lembrado por vários memorialistas e pelo historiador Claudio Galvão, como um grande folião. O amigo escritor Enélio Petrovich (1934-2012), seu parente, me dizia que o Deolindo era um grande folião de diversas agremiações carnavalescas, entre elas – ‘Maxixeiras’, Cão Jaraguá’ e ‘Zé Pereira’: – Deolindo tinha sangue de carnaval nas veias. Fantasiado, percorria casas e ruas de Natal. Aonde tivesse um batuque, ele estava presente!
O líder carnavalesco do antigo e tradicional Clube carnavalesco de rua, o ‘Noturno’, era um negro festivo de nome – ‘Benedito Zózimo Ferreira’. Ainda segundo, o jornal – ‘A República’, o velho carnavalesco nos anos 30, já ‘demonstrava cansaço de tanto carnaval’, pois o mesmo se encontrava: … sexagenário, mirrado, com a sua cor de maracujá maduro, o próprio Benedito, ‘pai do gigante’, o admirável e tradicional boêmio dava o melhor exemplo e imaginamos com que emoção ouvia as canções de Gotardo e as marchas de Galhardo e Moreira ao som das quais o seu grupo famoso arrastava meio-mundo pelas ruas da Natal, deslumbrado com a bicharia. E o Mestre Benedito, que era morador do Barro Vermelho, exímio artesão de bonecos e bichos gigantes das agremiações nos carnavais de Natal. Se foi, esquecido e até agora, sem nome em rua ou busto em praça alguma…
O famoso folião carnavalesco ‘Melquíades Barros’, que ‘partiu’ em 13 de dezembro de 1959, em Natal, foi um dos maiores animadores do nosso carnaval de rua dos anos 30/50. Era popularmente chamado de – ‘Yoyô Barros’. Ele sozinho criou um Bloco que arrastava multidão nas ruas de Natal – ‘ Cão Jaraguá’. Tivesse ou não, quem o acompanhasse, a sua Troça famosa saia às ruas, com o seu líder folião ‘seu Barros, tocando seu teimoso ‘reco-reco’. Segundo vários memorialistas de seu tempo, esta citada agremiação arregimentava o povão folião pelas ruas, ouvindo alegremente o seu famoso grito de guerra: – É o cão, é o cão, é o cão Jaraguá, é o cão Jaraguá!!!
E este folião, recebeu várias homenagens de vários memorialistas, entre eles – ‘Câmara Cascudo’; Genar Wanderley’ e Augusto Severo Neto, E o nosso saudoso amigo e pesquisador ‘Luís G.M. Bezerra’ (1923-2019), a nosso pedido, publicou no jornal ‘A Verdade’, de junho de 1999, um longo artigo sobre ‘Yoyô Barros’, onde acrescenta alguns nomes de carnavalescos que saíam no referido tradicional Bloco de rua – ‘Cão Jaraguá’: – ‘Silvino Dantas’, ‘Gama Lobo’, ‘José Pinto Júnior’ e o saudoso folclorista e amigo, ‘Gumercindo Saraiva’ (1915-1988), entre outros. Já o memorialista ‘Augusto Severo Neto’ (1922-1991), é outro que também não esquece em sua obra – ‘Ontem Vestido de Menino’, (1987), este famoso Bloco e seu líder, acrescentando mais nomes ilustres de aguerridos foliões: – ’Deolindo Lima’, ‘Sabóia’, ‘Gama Lobo’, ‘Tolaco’, ‘Amaro Andrade’, ‘Gualberto e Sousa Costa’, ‘Isaac Seabra’, ‘Zerôncio’, ‘Jaime dos G. Wanderley’, ‘Alberico’, ‘Babuá’… E o grande carnavalesco ‘Yoiô Barros’, foi em vida o que eu classificaria de – um verdadeiramente homem – ‘Carnaval!
E a família Botelho era animadíssima, envolvida com antigas serenatas, festas, grupos folclóricos e carnavais de ruas, destacaria dois deles – Chico Botelho, (1900-1959) e Israel Botelho (1897-1964), nomes citados pelo amigo historiador Claudio Galvão. E outro aguerrido folião, especificamente no bairro do Alecrim, foi o músico fundador de blocos, Olympio Batista (1889-1942).
Anos 40/50 – algumas destacadas lideranças de agremiações: – Escola de Samba – ‘Asa Branca’, de Severino Guedes (Alecrim); Bloco – ‘Pinto Pelado’ de Chico de Carlos (Rocas); Escola de Samba – ‘Só Falta Você’ – direção de João Honório da Silva; Bloco – ‘Chora na Rampa’; Bloco – ‘Caia na Folia’ – de Francisco Plácido das Chagas; Escola de Samba – ‘Os Inocentes do Samba’ – de Paulo Mulatinho; Bloco –‘ Pega no Vento’ – de Érico de Souza Hackradt (1927-1985), que era advogado, boêmio, vereador e carnavalesco. Bloco – ‘Os Garotos na Folia’ – de Valmir Pimentel Gomes; Índios – ‘Potiguares’ do senhor Brasil das Rocas e os Índios ‘Guaranis’ – do famoso Cacique Bum Bum – (Alecrim – Av. 7).
O folião ‘Albimar Marinho’, conhecidíssimo boêmio e folião carnavalesco, (1924-1966), tem seu registro biográfico feito pelo folclorista Deífilo Gurgel, no livro – ‘400 Nomes de Natal’ (2000): -… boêmio tipicamente natalense… conviveu com as melhores inteligências e os boêmios mais famosos da capital… muitas são as histórias de sua vida boêmia, líricas ou satíricas, registradas por seus amigos de geração, entre os quais se incluem grandes cronistas, como Newton Navarro, Sanderson Negreiros, Veríssimo de Melo e outros mais… um dos maiores boêmios de Natal, em todos os tempos… Ainda sobre Albimar, outros também teceram memoráveis comentários em prosa e verso, entre eles: Câmara Cascudo, Diógenes da Cunha Lima, Augusto Severo Neto e Ney Leandro de Castro, Gutenberg Costa, entre outros.
‘José Herôncio de Melo’ (1906-1957), grande folião ‘Zé Herôncio’, era boêmio, festivo e grandioso carnavalesco. Foi também editor do famoso jornal carnavalesco – ‘O Bombo’, que marcou época em nossa imprensa momesca. E o famoso referido ‘Zé’ era pai do também grande carnavalesco – (Tota Zerôncio, 1935-1991). E o escritor e memorialista do nosso carnaval, saudoso amigo ‘Ticiano Duarte’ (1931-2015), em uma crônica, publicada no jornal ‘Tribuna do Norte’, de 05 de março de 2000, deixa a sua homenagem ao grande folião Zé Herôncio: … Zé Herôncio editava o jornalzinho ‘O Bombo’, satirizando as figuras circunspectas da cidade, enchendo-os de apelidos e gozações. E o mesmo Zé Herôncio (pai de Tota), boêmio, poeta, irreverente, carnavalesco, a frente de uma orquestra, logo pela manhã, querendo parecer abrir o carnaval de rua, chegava ao Grande Ponto, saltitante… para escandalizar os primeiros bêbados, confundir ritmos, provocar gargalhadas, Dava colorido diferente ao carnaval de rua que a cidade perdeu no tempo… E o escritor e memorialista Augusto Severo Neto – (1922-1991), o relacionou numa justa homenagem entre tantos outros ilustres ‘líricos e loucos’ da nossa cidade do Natal: – Zerôncio, como ficou conhecido… era folião, boêmio, poeta, jornalista.. do bloco carnavalesco ‘Balança Porém Não Cai’, do qual ele também foi fundador e presidente perpétuo. … Os balanceiros que balançaram Natal, a batuta de ‘Zerôncio’: … José Jorge Maciel, Milton Ribeiro Dantas, Djalma Marinho, Moacir Duarte, João Galvão de Medeiros, Leonel Mesquita, Francisco Falcão, Roberto Freire, Luiz de Barros, João Aureliano, Sílvio Pedroza, Alvamar Furtado, Manoel Vilar, Humberto Nesi e uma turma de gente mais. Tudo gente boa… – ‘De Líricos e de Loucos, (págs. 95 a 98 – 1980). E nos anos 40, o folião ‘Raimundo Amaral’, funcionário dos Correios, ‘escandalizava’ os carnavais, fantasiado imitando a cantora Carmem Miranda, que segundo me dizia rindo muito o escritor e memorialista, amigo Lenine Pinto (1930-2019): Até mais bonita e elegante, do que a própria artista internacional…
Dos nossos Prefeitos de Natal, o maior e incansável folião foi o Djalma Maranhão (1915-1971), que conforme a imprensa de sua época, teria visitado muitas residências festivas durante os períodos momesco, nas ilustres companhias dos jovens foliões – ‘Newton Navarro’ e ‘Walflan de Queirós’. Além de sua presença nos diversos blocos e bailes noturnos. E historicamente, Djalma foi o Prefeito de Natal, que mais participou, com fotos históricas, parte delas a mim doadas pelo seu filho, amigo Marcos Maranhão, (1947-2006). E não se pode esquecer os dois grandes boêmios e festivos – Roberto Freire, (1915-1971) e Luiz Tavares (1913-1982), primo materno de meu pai, que sozinho e com seus próprios custos, fazia carnavais até nos antigos cabarés da nossa Ribeira.
Na Redinha: – Rei Momo amigo João Alfredo (1943-2004) e o amigo Carlos Castilho (1937-2021), sempre fantasiado de anjo nas ruas da Redinha velha festiva. E tem que se destacar dois grandes sambistas foliões do bairro das Rocas, Melé (1919-1984) e Lucarino (1935-1994). Além de Severino Guedes (1918-1995), do Alecrim, que ia do folclore ao carnaval. E dos mais antigos Reis Momos, destacamos – Zé Areia (1900-1972), Paulo Maux (1934-1984) e Severino Galvão (1914-1994).
E agora, cada leitor que faça a sua lista, porque listas, pois só causam omissões e confusões…
Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista
