No dia 22 de março de 1992, a Organização das Nações Unidas – ONU instituiu o Dia Mundial da Água, além de promover a Declaração Universal dos Direitos da Água, através da RES/64/292 de Julho de 2010, garantindo por lei o direito ao ser humano de usufruir de saneamento básico e acesso à água limpa e segura.
O calendário que usamos foi uma evolução do antigo calendário romano, e os nomes dos meses utilizados vieram dos deuses.
O nosso calendário, para contagem do tempo, permanece o mesmo, estabelecido pelo imperador romano Júlio César.
MARÇO – Nome originado de Marte, o deus da guerra.
No desfile imaginário dos deuses romanos, Marte (Março) passa num carro puxado por dois cavalos, cujos nomes eram Terror e Fuga.
Para os romanos, Marte era mais do que um guerreiro. Era um deus que podia conseguir tudo pela sua grande força. Pediam-lhe chuva, e a chuva vinha.
Atualmente, março de 2026, continuamos ameaçados por um desfile fictício, onde o deus da guerra, Marte, nos ameaça, puxado por cavalos, que representam o ódio, a vingança e a censura. E a força das águas tem destruído vidas no Sul do País.
Falando sobre o mês de Março, o mês das águas, ressaltamos a belíssima canção de Antônio Carlos Jobim, “Águas de Março“, uma verdadeira metáfora da imagem da passagem da vida, sem interrupção, e sua inevitável progressão rumo à morte. Assim são as águas de março, marcando o final do verão no sudeste do Brasil.
A letra aproxima a imagem das águas a uma promessa de vida, uma renovação.
No ano anterior à composição de “Águas de Março“, Tom Jobim havia sofrido a única grande perseguição política em sua vida. Em um protesto contra a censura que vigorava durante a ditadura militar no Brasil, Tom Jobim e alguns compositores assinaram um manifesto e se retiraram do Festival Internacional da Canção, da Rede Globo. Doze artistas, entre os quais Tom, foram detidos e, durante algumas horas, interrogados. Segundo declarações posteriores de Chico Buarque, Edu Lobo e Ruy Guerra, um diretor da emissora esteve presente e insistiu para que os compositores voltassem atrás e retornassem ao festival. A pressão não funcionou, mas – na opinião de Chico e Ruy – instigou o aparelho repressivo do regime a enquadrá-los na Lei de Segurança Nacional. Depois, Tom foi intimado várias vezes a prestar depoimento, chegando a ter o seu telefone grampeado e as suas cartas, violadas.
Segundo Tom, a questão foi resolvida “de uma maneira bastante brasileira”, quando um escrivão de polícia solidário o chamou e disse: “Olhe, o senhor não queira se meter com polícia… Isso aqui não é bom. Negócio de polícia não é bom. Vou bater um negócio aqui para o senhor…” E assim, o escrivão bateu à máquina de escrever uma declaração, que Tom assinaria. “Este papel aqui diz que o senhor não teve intenção”.
Para a revista Playboy, em 1988, Tom contou que, à época da criação de “Águas de Março“, o médico lhe disse que iria morrer de cirrose. E ele escreveu: “É um resto de toco, é um pouco sozinho’”.
Em 1992, para o Jornal do Brasil, ele declarou que escreveu “Águas de Março” em um período em que estava numa grande fossa. Parecia que tudo havia acabado para ele, e que não lhe restava nada a fazer. Por isso, se entregava à bebida.
A letra de “Águas de Março” é estruturada em um único verbo (ser), conjugado na terceira pessoa do singular, no presente do indicativo em, praticamente, todos os versos – exceto no refrão, transformado em plural (“São as Águas de Março …”. Há uma constante alternância entre versos considerados otimistas e pessimistas, além do uso de antítese (“vida”, “sol” / “morte”, “noite”), pleonasmo (“vento ventando”), paronomásia (“ponta” / “ponto” / “conto” / “conta”).
Sua letra tem caráter pouco narrativo e fortemente imagético, constituindo-se como séries descritivas conectadas a um espaço semântico amplo. Muitos elementos, de natureza geral, podem referir-se à cena do sítio: “pau”, “pedra”, “resto de toco”, “peroba-do-campo”, “nó na madeira”, “caingá”, “candeia”, “matita perê”, o que enquadra “Águas de Março” em um repertório de canções ecológicas.
A letra é uma profunda reflexão do sentido da vida.
ÁGUAS DE MARÇO
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba no campo, é o nó da madeira
Caingá candeia, é o matita-pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento vetando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto um desgosto, é um pouco sozinho
É um estepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É um pingo pingando, é uma conta, é um ponto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manha, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terça
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração…
