A VIDA EVITADA –
Quantas vezes você já desviou o caminho para não sentir o peso da decepção? Uma conversa difícil adiada, um sonho engavetado, um risco evitado. Fazemos isso o tempo todo, como se a frustração fosse um inimigo a ser banido. Mas e se eu te disser que, ao fugir dela, estamos fugindo da própria vida?
Pense no que nos move. O desejo, esse fogo freudiano que queima por dentro, sempre esbarra na realidade. Queremos o amor perfeito, o sucesso imediato, a paz sem esforço. Quando não chega, a frustração surge: aquela dor aguda que nos faz questionar tudo. Na psicanálise, ela é o eco do inconsciente, o grito do que foi reprimido. Ignorá-la é como tapar os ouvidos para o próprio coração batendo.
Filosoficamente, os estoicos já sabiam: a vida é fluxo de obstáculos. Epicteto diria que não são as coisas que nos frustram, mas nossa visão delas. Evitar o atrito é escolher a estagnação. Sem frustração, não há crescimento. É ela que nos empurra a mudar, a criar, a persistir. Lembra de um escritor que rasga páginas inteiras? Ou de um amor que termina para abrir espaço ao verdadeiro? A dor da frustração é o solo fértil onde brota o novo.
Os estoicos já advertiam que o sofrimento humano nasce menos dos fatos e mais do juízo que fazemos deles. Epicteto foi preciso ao afirmar que “não são as coisas que nos perturbam, mas as opiniões que temos sobre elas”. No entanto, há uma leitura empobrecida dessa máxima: a de que, para não sofrer, basta não se implicar. Assim, o sujeito acredita estar exercendo domínio sobre si quando, na verdade, está apenas se retraindo do mundo.
Sêneca jamais defendeu uma vida asséptica. Ao contrário, alertava que “quem teme sofrer já sofre pelo medo”. O problema não é a frustração, mas a fantasia de que ela pode ser completamente eliminada. Quando o cuidado degenera em evitação, o que se instala não é a virtude, mas a covardia moral disfarçada de prudência. Vive-se menos para sentir menos e paga-se por isso com um vazio persistente.
O estoicismo clássico não propunha a negação da vida, mas o alinhamento com ela. Aceitar o que não depende de nós não significa renunciar ao agir, ao amar ou ao tentar. Significa compreender que o resultado escapa, mas a escolha permanece. Marco Aurélio lembrava que a vida acontece no agora, não na promessa de segurança futura. Evitar o presente em nome de um controle ilusório é desperdiçar a única coisa que realmente se possui.
O neoestoicismo contemporâneo, ao dialogar com a psicanálise e a filosofia existencial, aprofunda esse ponto: a frustração não é apenas inevitável, é estruturante. Não se trata de um erro de percurso, mas de um elemento constitutivo da experiência humana. Desejar é aceitar a possibilidade da perda. Agir é aceitar o risco do fracasso. Viver é aceitar a instabilidade como condição. Quando o sujeito tenta blindar-se completamente, ele rompe com o próprio dinamismo da vida. Cria uma ética da autopreservação absoluta, na qual tudo o que ameaça o equilíbrio deve ser evitado. Relações intensas, escolhas ousadas, projetos que exigem exposição emocional tornam-se perigos desnecessários. Em nome da ataraxia, constrói-se uma existência neutra, correta, funcional e profundamente estéril.
Há, nisso, uma contradição fundamental. O estoico não foge da vida; ele a enfrenta com lucidez. O neoestoico tampouco busca anestesia emocional, mas discernimento. A verdadeira fortaleza não está em não sentir, mas em sustentar o que se sente sem ser dominado por isso. A frustração não é o oposto da virtude; muitas vezes, é o seu campo de exercício.
Na literatura, vemos isso em cada herói relutante. Dom Quixote sai em busca de gigantes sabendo das quedas; Ana Karenina dança no abismo do desejo. Eles vivem porque abraçam a frustração, não porque a evitam. E nós? Passamos dias em rotinas seguras, redes sociais cheias de vidas editadas, promessas de felicidade sem custo. Resultado: um vazio quieto, uma existência pela metade.
Há pessoas que não fracassam, não erram, não caem e, exatamente por isso, não vivem. Aprenderam cedo que a frustração dói e, como toda dor, deveria ser evitada. Transformaram o cuidado em estratégia, a prudência em projeto de vida, a contenção em virtude moral. O que não perceberam é que, ao tentar driblar o sofrimento, passaram a driblar a própria existência.
Na clínica e fora dela vê-se com frequência esse movimento silencioso: não amar para não sofrer, não desejar para não faltar, não tentar para não perder. O sujeito se protege tanto que se anestesia. Freud já advertia que o princípio do prazer não visa à felicidade, mas à diminuição da tensão, ainda assim, quando levado ao extremo, ele produz uma vida empobrecida, regulada pela evitação e não pelo desejo. Vive-se menos para sofrer menos e sofre-se justamente por viver menos.
A frustração, porém, não é um acidente da vida; é uma de suas estruturas. Desejar é aceitar que algo falte, que algo escape, que algo não se realize como o imaginado. Lacan nos lembra que o desejo nasce da falta, não da plenitude. Quando o sujeito tenta eliminar toda possibilidade de frustração, elimina também a chance de se implicar com o mundo. Resta-lhe uma existência administrada, correta, segura e vazia.
A filosofia existencial sempre desconfiou dessa vida excessivamente protegida. Kierkegaard chamaria isso de desespero silencioso: não o grito, não o colapso, mas a recusa íntima de ser quem se é. Nietzsche veria aí o triunfo do medo travestido de prudência. Evitar a queda pode parecer sensato, mas também impede o voo. E uma vida que nunca se arrisca termina por se reduzir à sobrevivência.
Há uma violência sutil nesse modo de existir. Não a violência do excesso, mas a da renúncia cotidiana. Renuncia-se ao amor intenso, ao trabalho que desafia, à palavra que poderia desagradar, à escolha que poderia falhar. Em nome da paz, sacrifica-se a vitalidade. Em nome da segurança, constrói-se uma prisão confortável.
A crônica da vida evitada não é trágica no sentido clássico; ela é morna. Não há grandes perdas, mas também não há grandes encontros. O sujeito passa ileso pelos dias, mas não atravessado por eles. A existência se torna um território neutro, onde nada ameaça e nada acontece.
Talvez seja preciso dizer o óbvio que insistimos em negar: viver implica frustração. Não como falha moral, não como incompetência emocional, mas como condição humana. A maturidade não está em eliminar a dor, e sim em sustentar o risco de existir apesar dela. A vida não pede garantias; pede presença.
No fim, a pergunta que permanece não é se sofreremos, isso é inevitável, mas se aceitaremos pagar o preço de não sofrer: uma vida intacta, porém não vivida.
Então, da próxima vez que a frustração bater à porta, convide-a para entrar. Deixe-a te remexer, te questionar, te transformar. Porque evitar a frustração é simples: basta não tentar nada de verdade. Mas viver? Isso exige coragem para o desconforto. E no fim, é aí que encontramos o que realmente vale: uma vida plena, com suas cicatrizes e tudo.
Tatyanny Nascimento – Psicanalista e escritora
