A PREGUIÇA MINHA DE CADA DIA –
Existe uma preguiça que não mora no sofá, não pede travesseiro, não se esconde sob manta felpuda. É um esgotamento figurativo, seletivo, quase militante, que se nega a gastar energia com o que já nasceu morto. O que tenho é falta de vontade de entrar em briga de eco, em duelo de egos onde cada lado repete bordão como papagaio de auditório, acreditando que volume substitui argumento. Estafada de quem ergue a ignorância como bandeira e ainda exige aplauso, como se a mediocridade fosse espetáculo. Eu não aplaudo.
Desencorajada, também, de abrir o aplicativo e rolar sem fim por fileiras de opiniões arrogantes, cada uma mais convicta que a anterior, como se o mundo fosse um condomínio e o síndico o dono da verdade. Dá preguiça, preguiça boa, de quem aprendeu que tempo é recurso escasso e sabe exatamente o seu valor. Entendi que nem toda provocação merece réplica, nem toda pergunta precisa de resposta. A vida não é assembleia de condomínio, não exige presença em cada pauta inútil. Eu me nego.
E tem ainda a moda das certezas vencidas, aquelas ideias que já não servem, mas insistem em ser usadas como mantra. Tem também a piada que envelheceu mal, papos ultrapassados e sem contexto… uma lista sem fim de coisas imprestáveis, nesses casos, eu tiro toda essa tonelada do armário das coisas inservíveis e transfiro para a lixeira, isso, por educação comigo mesma, porque demodê não é só roupa fora de estação, é discurso sem escuta, orgulho sem fundamento, futilidade travestida de missão.
Esse tipo de definhamento, para mim, é recusa. Sim, recuso carregar ressentimento como quem coleciona figurinhas. Proíbo-me gastar saliva em debate que não cabe nem no rodapé da história. Enjeito a obrigação de me posicionar sobre tudo, até sobre o tempero da lasanha da minha irmã. No espaço que sobra, descanso de verdade, profundamente, para ter energia de dizer sim ao que ainda vale conversar, debater. Apropriar-me desse tipo de amofinamento, nesse caso, é quase um ato político, é resistência contra a ditadura da pressa, contra a tirania do “tem que responder agora”, contra a obrigação de se indignar em tempo real. Não, obrigada. Eu escolho o silêncio como quem escolhe sobremesa: com prazer e sem culpa.
E, veja bem, não é fuga, é filtro. Filtro contra o ruído, contra a ladainha, contra o espetáculo vazio. Falo da fadiga que protege, que cuida, que preserva, que não se confunde com apatia, mas com inteligência emocional, porque gastar energia com quem não quer diálogo é como soprar vela de bolo apagado, que nada mais é do que esforço inútil e constrangimento garantido. Também me enfada acompanhar “influencer” que acorda às cinco da manhã para ensinar disciplina, mas não consegue organizar a própria coerência, prefiro ler os comentários das postagens, são bem mais produtivos. Preguiça de político incompetente, que gasta dinheiro público e tempo tentando cassar vereadora ao invés de elaborar projetos que realmente importem a população. Gastura de comentarista instantâneo, que transforma qualquer tragédia em oportunidade de engajamento. Sem nervos para quem confunde opinião com currículo e acha que gritar em live é prova de relevância.
Tô fora de grupo de WhatsApp da família, onde a cada dez mensagens, oito são correntes milagrosas e duas são fake news embaladas em caixa alta. Cansada de filas, onde o tempo não passa e o assunto é sempre o mesmo, política, futebol e a vida alheia, sempre com as mesmas narrativas. Sem saco para debate de bar, em que cada torcedor se transforma em técnico da seleção e cada eleitor em cientista político de ocasião. Sem bateria para idiotas de plantão que se acham a última bolacha do pacote.
De verdade, essa preguiça é vacina contra o contágio da futilidade, é antídoto contra a epidemia de discursos prontos, contra a febre de indignação performática, contra a mania de transformar qualquer assunto em palco. Exausta de quem acredita que opinião é senha para entrar em qualquer conversa, mesmo sem convite. No fim, essa fraqueza de ânimo é liberdade. Liberdade de não se deixar sequestrar por urgências alheias, de não se sentir culpado por não entrar em guerra que não é sua, de escolher o descanso como prioridade. Porque descansar não é luxo, é sobrevivência. E sobreviver, convenhamos, já é uma vitória diária.
Eita, que preguiça arretada!
Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, crô[email protected]
