A INFANTILIZAÇÃO DA SOCIEDADE E O COLAPSO DA RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL –

Há processos históricos que não se anunciam por rupturas visíveis, mas por dissoluções graduais. A infantilização da sociedade brasileira é um desses fenômenos: não irrompe, infiltra-se. Não impõe, condiciona. E, ao fazê-lo, corrói silenciosamente o fundamento mais elementar da vida civil: a responsabilidade individual.

O homem adulto, na acepção clássica, não é definido por sua idade biológica, mas por sua capacidade de responder por si, de assumir a autoria de seus atos, de suportar suas consequências e de orientar sua conduta segundo princípios que transcendem o imediato. Essa figura, no entanto, encontra-se em processo de extinção simbólica.

Em seu lugar, emerge um indivíduo psicologicamente dependente, moralmente relativizado e intelectualmente terceirizado.

A responsabilidade, que outrora era o eixo organizador da liberdade, passa a ser percebida como fardo indevido. O erro deixa de ser interpretado como falha pessoal e passa a ser reconfigurado como produto de estruturas externas. A culpa dissolve-se em categorias abstratas: “contexto”, “sistema”, “condicionamento”.

Essa mutação semântica não é inocente, ela é funcional.

Ao deslocar a origem da ação do indivíduo para o meio, esvazia-se a noção de agência. E, sem agência, não há indivíduo pleno, há apenas um ente reativo, moldado por forças que ele não compreende e das quais não se considera responsável.

Trata-se, em última instância, de uma reconfiguração antropológica.

A cultura contemporânea não apenas tolera essa regressão, ela a incentiva. A fragilidade é elevada à condição de identidade moral; a incapacidade, à categoria de legitimidade política. A maturidade, por sua vez, torna-se suspeita, frequentemente confundida com insensibilidade, rigidez ou “falta de empatia”.

Cria-se, assim, uma inversão perversa: quanto menor a autonomia, maior a autoridade reivindicada.

O resultado inevitável é a hipertrofia do Estado.

Quando o indivíduo abdica da responsabilidade por sua própria existência, transfere-a a uma instância superior. O Estado deixa de ser um instrumento de organização e passa a assumir funções tutelares, regula comportamentos, media conflitos íntimos, define parâmetros morais e, progressivamente, substitui a consciência individual.

Essa dinâmica não é apenas política, é civilizacional.

Uma sociedade composta por indivíduos que não reconhecem a si mesmos como agentes morais autônomos torna-se incapaz de sustentar liberdade. Porque a liberdade não é um dado, é uma conquista contínua que exige disciplina interna, clareza de julgamento e disposição para arcar com as consequências das próprias escolhas.

Sem responsabilidade, a liberdade degenera em permissividade.

E da permissividade à dependência, a transição é apenas uma questão de tempo.

O que se observa, portanto, não é um mero desvio comportamental, mas um processo de desestruturação do próprio conceito de sujeito. O indivíduo deixa de ser centro de decisão e torna-se ponto de convergência de influências.

Ele já não age, reage.

Já não decide, absorve.

Já não constrói, consome narrativas.

A infantilização, nesse sentido, não é um estágio, é um projeto difuso, sustentado por incentivos culturais, institucionais e simbólicos.

E todo projeto que dissolve a responsabilidade individual, cedo ou tarde, dissolve também a própria possibilidade de ordem, liberdade e verdade.

 

 

 

 

 

Sara Natália – Articulista e colunista. Acadêmica em Direito

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores

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