A ERA DO RUÍDO: QUANDO A OPINIÃO VIROU ESPETÁCULO E O PENSAMENTO VIROU RESISTÊNCIA –
A era do ruído: quando a opinião virou espetáculo e o pensamento virou resistência
Vivemos uma era paradoxal. Nunca se falou tanto e nunca se disse tão pouco. O excesso de informação não nos tornou mais conscientes, apenas mais reativos. O debate público foi sequestrado por narrativas rasas, polarizações artificiais e por um algoritmo que premia o barulho em detrimento do pensamento.
O que antes era opinião fundamentada hoje é confundido com opinião performática. O que antes exigia leitura, contexto e responsabilidade intelectual agora se resume a frases de efeito, cortes de quinze segundos e indignações instantâneas. O pensamento profundo tornou-se um ato de resistência.
A democracia sob pressão do espetáculo
A democracia não morre apenas por golpes. Ela adoece quando o cidadão deixa de pensar e passa apenas a reagir. Quando a política vira torcida, o jornalismo vira palanque e o debate vira ringue, perde-se o essencial, a capacidade de escuta crítica.
No Rio Grande do Norte, microcosmo fiel do Brasil, vemos esse fenômeno se repetir. Problemas estruturais históricos são tratados como se fossem disputas pessoais. Questões complexas são reduzidas a vilões convenientes. O eleitor, cansado e desinformado, passa a consumir versões, não fatos.
A democracia exige mais do que voto. Exige consciência. E consciência não nasce do grito, nasce do pensamento.
O colapso da autoridade intelectual
Outro fenômeno inquietante é o desprezo crescente pelo conhecimento técnico. Especialistas são relativizados. Dados são atacados. A ciência é colocada no mesmo patamar de achismos emocionais. Criou-se a ilusão perigosa de que toda opinião vale o mesmo, mesmo quando uma é baseada em estudo e a outra em crença.
Não, não valem.
A igualdade democrática não significa equivalência intelectual. Quando tudo vira opinião, nada vira verdade. E sem verdade não há decisão racional, apenas manipulação.
A responsabilidade do jornalismo sério
É nesse cenário que o jornalismo precisa reafirmar seu papel. Não como juiz moral, mas como mediador racional da realidade. O jornalismo que apenas replica tendências digitais abdica de sua função histórica. Já o jornalismo que contextualiza, confronta dados e provoca reflexão cumpre sua missão civilizatória.
Ser jornalista hoje não é disputar curtidas. É disputar lucidez.
É preciso coragem para ir contra a maré do simplismo. Coragem para dizer o que não agrada. Coragem para sustentar o argumento quando o algoritmo prefere o escândalo.
Pensar é um ato político
Pensar profundamente virou um gesto político. Questionar virou rebeldia. Analisar virou elitismo, uma distorção conveniente para quem lucra com a confusão.
Mas não há progresso sem pensamento estruturado. Não há justiça social sem diagnóstico honesto. Não há futuro sem enfrentamento intelectual do presente.
O Brasil não precisa de mais barulho. Precisa de mais clareza.
Não precisa de salvadores da pátria. Precisa de cidadãos críticos.
Não precisa de opiniões rápidas. Precisa de consciência lenta e sólida.
Conclusão: o silêncio que pensa vale mais que o grito que confunde
Talvez o maior ato revolucionário do nosso tempo seja simples. Ler, refletir, desconfiar do óbvio e recusar a manipulação emocional. Em um mundo viciado em respostas rápidas, pensar profundamente é um luxo e também uma necessidade.
Porque, no fim, não é quem grita mais que muda a história.
É quem entende melhor.
Sara Natália – Formanda em Direito e colunista
