UM DETETIVE DIFERENTE –

Os romances detetivescos (um subgênero da crime fiction, como dizem os ingleses) são geralmente tratados, pela crítica literária, com certo preconceito ou mesmo desdém. Muito provavelmente porque não são escritos para escritores; são escritos – e várias vezes muito bem escritos – para o grande público. Mas, claro, toda regra tem exceções. Certamente, ser tratado com desdém não tem sido o caso do detetive Sherlock Holmes, criação do médico e escritor britânico/escocês, cavalheiro do Reino de Sua Majestade, Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930). Essa foi a primeira constatação que me veio ao assistir (após algumas tentativas frustradas) ao recém lançado Sherlock Holmes, de Guy Ritchie. Pelo contrário, Sherlock Holmes tornou-se uma personagem cult. A segunda constatação foi que, de tão cultuado e interpretado, hoje, certamente, não existe apenas aquele único Holmes imaginado por Conan Doyle.
O Sherlock Holmes de Guy Ritchie é um exemplo claro do que estou dizendo. É verdade que a película está ambientada na Londres vitoriana de fins do Século XIX, e Holmes ainda mora em Baker Street 221B. Algumas personagens são conhecidas, como o inspetor Lestrade e as garotas Irene Adler e Mary Morstan e, no final, faz-se menção ao arqui-inimigo professor Moriarty. Mas pouco enxerguei, no filme, do mais importante: as “peripécias mentais” do Holmes de Conan Doyle, assim como narradas pelo seu fiel companheiro, o Dr. John H. Watson (autoego do autor?). O Holmes (Robert Downey Jr.) e o Watson (Jude Law) de Guy Ritchie, repaginados para o público de hoje, estão muito mais para mestres de luta livre do que para atletas da mente. Não que o filme seja de má qualidade. Ao contrário, como divertimento (e assim, acredito, deva ser encarado), me prendeu da primeira à última cena. Nem eu, com arroubos de puritanismo e em defesa do Cânone Sherlockiano, me senti ofendido com esse “outro” Sherlock Holmes. 
O filme de Guy Ritchie, com certeza, não é um caso isolado de reinterpretação da obra original de Conan Doyle. Outros Holmes, mais ou menos fiéis ao original ou particularmente diferentes, já protagonizaram inúmeros outros filmes, séries para televisão ou mesmo obras de literatura, de gosto, para uns, ainda mais controverso. São tantos que, certamente, o espaço de uma crônica não seria suficiente para sequer mencioná-los com um mínimo de informação. Apenas, puxando pela memória, em busca de um tempo ainda não perdido, relembro minha adolescência e o deleite que me causou o “Young Sherlock Holmes” (no Brasil, “o Enigma da Pirâmide”) de Barry Levinson, de 1985, hoje talvez esquecido, mas, à época, reproduzido mais de uma vez na televisão brasileira.   
O fato é que o Sherlock Holmes de Conan Doyle é um detetive bem peculiar e bem diferente do desenhado por Guy Ritchie. Isso resta bem claro quando levamos em consideração o Cânone Sherlockiano, formado por quatro romances – “A Study in Scarlet” (1887), “The Sign of the Four” (1890), “The Hound of the Baskervilles” (1902) e “The Valley of Fear” (1915) – e cinquenta e seis contos, iniciados com “A Scandal in Bohemia”, originalmente publicado, em 1891, na Strand Magazine. O leitor brasileiro, aliás, tem acesso a uma excelente “edição definitiva” desse Cânone, em seis volumes, ricamente ilustrada, publicada por Jorge ZAHAR editor. O Holmes do Cânone é aquele peculiar detetive, amante do tabaco e usuário de cocaína em seus momentos de ócio (mental, que fique claro), mas de extraordinária mente analítica, como foi notado por Watson logo no primeiro encontro entre as personagem em “A Study in Scarlet”. Personagem às vezes presunçoso e flamboyant, cuja mente “rebels against stagnation”, orgulha-se de resolver crimes “analiticamente”, deixando à Scotland Yard e à sua força policial heterodoxa, os “Bakers Street Irregulars”, a responsabilidade da condução “mundana” de seus casos.
Foram as idiossincrasias dessa peculiar personagem que povoaram, sem até hoje cessar, a mente dos seus inúmeros admiradores. E se o leitor não sabe, a mente do próprio Conan Doyle foi tomada por sua personagem, ao ponto de o autor havê-lo matado, em 1893, no conto “The Final Problem” (para depois, a pedido dos leitores, em “The Adventure of the Empty House”, de 1903, ressuscitá-lo), afirmando que se não matasse Holmes, Holmes o mataria.
Mas será que o próprio Conan Doyle, se vivo fosse, aprovaria o Holmes de Guy Ritchie ou, ao contrário, engenhosamente, o mataria? Bom, não sei. Mas sei que, dada a genialidade de Conan Doyle para criar assassinos pitorescos, precisaríamos de mais um “outro” Holmes para investigar o caso. Elementar, meu caro leitor.  

Marcelo Alves Dias de Souza – Procurador Regional da República, Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e Mestre em Direito pela PUC/SP

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