O PÃO DA TARDE –
Na década de 1950, residia no bairro de Tirol, na rua Mossoró, bem próximo ao antigo Mercado do Tirol, hoje o prédio da Caixa Econômica.
Curtia o momento, com muita espontaneidade, muita liberdade, sentindo o verdadeiro sabor da vida. Momento inesquecível e inapagável na minha rica adolescência.
Estudava no Grupo Escolar Áurea Barros, na rua Afonso Pena, onde terminei o meu bom curso primário, com os ensinamentos de excelência de seus mestres.
As largas ruas do bairro, sem calçamentos, motivava e estimulava a meninada a criar seus campos de “peladas” e, usá-los cotidianamente. O futebol e o estudo eram irmãos siameses.
Já saía de casa com o calção por baixo da bermuda (da farda) para não perder tempo de ir em casa trocar.
Jogava até o escurecer, quando era insistentemente chamado para tomar o café da noite.
Algumas passagens não podem e não devem ser esquecidas e, nem deixar de ser contadas: ao começar a escurecer, o sol começar a cair sobre o Rio Potengi, era a hora exata de passar o caminhão da Subsistência do Exército, com cestos e mais cestos de pão quentinho e cheiroso para entregar na casa dos militares.
De estômago vazia, após várias peladas de futebol, a barriga encostando no espinhaço, ficava na espreita para dar o golpe, dar o bote, ou seja, subtrair alguns pães para saciar o vazio do estômago que já incomodava e começava a roncar. Usava a expertise: conseguir retirar o pão com o caminhão em movimento e saltar também em movimento, sem nada acontecer; o pão era subtraído limpinho, limpinho. Zero de areia. Coisa de artista de cinema e bem executado pelos meninos ativos do bairro do Tirol
O pão rapinado, exalava um cheiro irresistível e exuberante, de sabor super especial; muito mais gostoso e atrativo do que o pão comprado em padaria. Era devorado em poucos minutos.
Que bom, reviver momentos inesquecíveis e sem maldades, vividos na juventude, em tempos que não voltam mais, deixando um rastro marcante, inapagável e histórico na vida dos seus executantes.
Todos esses momentos eram compartilhados com o meu irmão Euclides.
Tempo bom! Melhor ainda, o pão!
Berilo de Castro – Médico e Poeta
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