O OCASO DO HERÓI –

“Herói por Acaso” é o título da reportagem do jornalista Luiz Gonzaga Cortez publicada certa vez, no Diário de Natal. Nela o brilhante repórter e pesquisador traça um perfil burlesco e deformado do soldado Luiz Gonzaga de Souza, com fundamento nas declarações do servidor público aposentado, André Batista de 77 anos. O soldado Luiz Gonzaga de Souza foi considerado herói pela Polícia Militar após o fracasso da Intentona Comunista no Rio Grande do Norte, em 1935. O relato demolidor de Cortez, acentua que esse “herói” foi achado “no meio da lama do Passo da Pátria, num mangue do Rio Potengi, nos fundos do quartel da Polícia Militar”. “Era doido e andava descalço, unhas das mãos e pés grandes e sujos”.

Não desejo contestar as observações do quase octogenário informante (André Batista), que alegou haver conhecido o soldado Luiz Gonzaga nem, muito menos, sou pesquisador para refutar ou polemizar com um estudioso do assunto, do quilate do jornalista Luiz Gonzaga Cortez, que publicou um notável trabalho sobre a campanha integralista no Rio Grande do Norte. Mas, me permito fazer algumas reflexões. Quantos “heróis” duvidosos não estão, hoje, incorporados a história de países e instituições pelo mundo afora? Zapata, Pancho Villa, Jesse James, Stalin, Hitler, Perón, Carlos Lamarca, Che Guevara, Carlos Prestes, Evita, Macunaíma (ficção), Lampião, Antonio Conselheiro, etc., podem todos ser “canonizados”? O soldado Luiz Gonzaga de Souza, “horripilante”, “lobisomem”, “cabeludo”, “doido”, tornou-se o anti-herói, o Quasimodo fardado conforme os fartos e corrosivos adjetivos do seu contemporâneo André Batista.

Luiz Gonzaga podia não ter a beleza física de um Tarcísio Meira, a coragem de um padre Miguelinho, a riqueza de um Roberto Marinho, mas era um herói pé-de-chinelo, papa-jerimum, caboré. Que herói maior se poderia exigir para uma Intentona Comunista fajuta e inconsequente como aquela de 1935, que só durou horas?

Gonzaga morto nasceu o símbolo. E qual o país que não reverencia símbolos? Qual a igreja, partido político, poderes Executivo, Legislativo e Judiciário que não cultuam a simbologia dos seus mitos, santos e pecadores. Por que um sem-terra, um sem-teto, um catador de lixo, um pescador do mangue, um policial sem salário, um mendigo não pode ser um herói? Se não temos tantos heróis olímpicos como Tamandaré, Barroso, Osório e outros, temos aquele que a condição humana revelou ressuscitado várias vezes pela bala perdida que o legitimou para a posteridade.

A verdade histórica é uma fina lâmina cortante, que embora em andrajos tenha deixado a farda de Luiz Gonzaga, nem porisso enodoa o respeito da Polícia Militar do Rio Grande do Norte em homenagear a humanidade comum do seu mais proletário e desvalido combatente que

sintetizou com a morte, o fim de um movimento golpista sem passado e sem futuro. Afinal, o que é um herói?

 

 

 

Valério Mesquita – Escritor, mesquita.valerio@gmail.com

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