CARREIRAS FLUIDAS PROMETEM LIBERDADE, MAS PODEM COBRAR UM PREÇO ALTO – Jussara Goyano

CARREIRAS FLUIDAS PROMETEM LIBERDADE, MAS PODEM COBRAR UM PREÇO ALTO –

Nunca se falou tanto em carreiras fluidas. A ideia de não seguir um único caminho profissional, de combinar diferentes atividades ao longo da vida e de reinventar-se conforme o contexto soa moderna, atraente e, para muitos, necessária. Em um mundo instável, a flexibilidade parece uma virtude essencial.

O problema é que essa fluidez, quando não vem acompanhada de limites claros, pode se transformar em sobrecarga constante.

Na prática, carreiras fluidas costumam exigir que a mesma pessoa seja especialista, comunicadora, vendedora, gestora, produtora de conteúdo e administradora do próprio tempo. Pesquisas da Organização Internacional do Trabalho mostram que trabalhadores em regimes mais flexíveis ou independentes tendem a ter jornadas mais longas e maior dificuldade de desconexão do trabalho, mesmo quando possuem autonomia formal.

O sociólogo Richard Sennett já alertava que a flexibilidade excessiva pode corroer a noção de continuidade e propósito. Quando tudo muda o tempo todo, fica difícil construir uma narrativa coerente sobre quem somos e para onde estamos indo. Estudos recentes em psicologia do trabalho reforçam essa ideia ao associar carreiras fragmentadas a maiores níveis de ansiedade e insegurança subjetiva, mesmo entre profissionais qualificados.

Outro risco comum das carreiras fluidas é a romantização da disponibilidade total. Como muitas vezes não há um cargo fixo ou um horário definido, surge a expectativa de estar sempre acessível, sempre aprendendo algo novo, sempre pronto para se adaptar. Pesquisas publicadas no Journal of Vocational Behavior indicam que a pressão por constante atualização está diretamente ligada ao aumento do esgotamento profissional em trabalhadores autônomos e freelancers.

Além disso, a renda costuma ser irregular, o que adiciona uma camada extra de estresse. Relatórios da OECD apontam que trabalhadores independentes enfrentam maior volatilidade de renda e menor proteção social, fatores que afetam diretamente a saúde mental e a capacidade de planejamento de longo prazo.

Nada disso significa que carreiras fluidas sejam um erro em si. Elas podem ser criativas, adaptáveis e alinhadas a diferentes fases da vida. O ponto central é reconhecer que flexibilidade não pode significar ausência total de estrutura.

Criar limites, definir prioridades e escolher conscientemente o que não será feito são atitudes fundamentais para que a fluidez não se transforme em exaustão. Caso contrário, o que parecia liberdade acaba se parecendo muito com um trabalho infinito, sem pausas nem garantias.

 

 

 

Jussara Goyano – jornalista e Coach certificada pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento SP

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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