A FIGA –

Alcino e Dinalva eram casados há 20 anos e tinham três filhos, sendo uma moça e dois rapazes. Moravam em Natal (RN). Servidor público estadual, depois do expediente, Alcino costumava se encontrar com amigos, em um conhecido bar da cidade. Sua bebida predileta era cerveja. Bebia diariamente, e quando a esposa reclamava, ele dizia que cerveja não fazia mal a ninguém.

Uma vez por outra, a ressaca batia, acompanhada de uma tremenda disenteria. Quando melhorava, Alcino voltava a beber. Essas crises foram se amiudando e, por insistência da esposa, ele foi a um gastroenterologista. Após uma série de exames, o diagnóstico foi de uma cirrose hepática, já em estado avançado. Alcino foi internado às pressas, e o tratamento foi iniciado. A parada brusca do álcool provocou-lhe a síndrome da abstinência, e sua mente ficou muito perturbada. Por causa disso, chegou a ser internado em um hospital psiquiátrico.

Mas seu fígado não processava mais os psicotrópicos que lhe eram prescritos. Retornou ao hospital anterior, para continuar o tratamento da cirrose. Dinalva, que cansara de lhe implorar para que diminuísse a bebida, via agora acontecer o que mais temia. O fígado de Alcino não aguentou o exagero diário de bebida, e ele adoeceu. De repente, o quadro se agravou. Houve diversos internamentos e diversas altas hospitalares, até que viesse o desfecho do quadro.

Desesperada, Dinalva chorava a toda hora, diante do prognóstico dado pelo médico. Alcino se preocupava com o sofrimento da mulher, e procurava acalmá-la, dizendo que logo estaria curado. Com o seu bom humor, conseguia disfarçar seu sofrimento e sua preocupação. Mas, à medida que o quadro se agravava, sentia que estava chegando ao fim. Muito triste, prometia à esposa e aos filhos que, quando ficasse curado, jamais voltaria a beber. Dinalva se lembrava da frase, que se tornou ditado popular, “agora é tarde, Inês é morta”.

Mesmo debilitado, às vezes brincava com a mulher, dizendo-lhe que iria ficar bom e ainda lhe daria muito trabalho. Num dos seus últimos dias de vida, Alcino, ainda consciente, percebeu lágrimas nos olhos da esposa. Carinhosamente, procurou tranquiliza-la, dizendo:

– Não chore não, querida! Eu sei que vou morrer, mas não se desespere. Estou pedindo a Deus para morrer num dia e você no outro.

Dinalva arregalou os olhos assustada, botou os braços para trás, e fez duas figas com as mãos. Não disse nada ao moribundo, mas, revoltada, entrou no banheiro, xingando-o baixinho:
“Morra sozinho, infeliz, e se dane para o inferno”!

Violante Pimentel – Escritora

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