EVOCANDO JOSÉ AREIA –

Um dos mais inteligentes e famosos boêmios potiguares, JOSÉ AREIA, (1900-1972) viveu na época da Segunda Guerra Mundial, e marcou época em Natal, não apenas pela vida de boêmio, como pelo arsenal de respostas malcriadas, que trazia na ponta da língua, pronto para se defender dos desafetos ou simples cidadãos anônimos, que, por acaso o incomodassem.

Havia quem mexesse com ele, somente para ouvir a resposta agressiva e disparatada.
Frequentador do Bairro da Ribeira e querido  pela turma da boemia, devido à sua inteligência privilegiada e bom humor, era uma figura disputada nas mesas de bar.
Pintou o sete no tempo da guerra, lucrando nas vendas que fazia por contra própria, chegando a vender urubu por papagaio aos soldados americanos, instalados em Natal e Parnamirim.
Passeava com um carneiro lindo, branco, felpudo e gordo, que não lhe pertencia, passando rifa dele pelo jogo do bicho, enganando os bestas.
Certa vez, um comprador da rifa foi sorteado com o carneiro e avisou a José Areia que só iria buscar o prêmio no final do mês.  No dia marcado, José Areia já tinha arranjado um cabrito magro e doente e apresentou ao ganhador. O homem danou-se e disse que o carneiro cuja rifa ele tinha comprado era gordo e bem tratado. Não era aquele cabrito magro e doente. José Areia se justificou:
-Rapaz, o seu carneiro adoeceu, dormindo na chuva e no sereno, além de não ter quem lhe desse comida.
E prometeu que iria arranjar um carneiro igual para lhe entregar. Essa dívida foi para o tinteiro, pois ele nunca arranjou outro carneiro.
Certa vez, por falta de pagamento, foi obrigado a devolver a chave da casa onde morava de aluguel.  Sem que o dono soubesse, continuou morando na casa, entrando e saindo pela janela, até ser descoberto pelo dono.  A confusão foi grande.
Um certo dia,  um professor que estava na porta do Café São Luiz, ao ver José Areia se aproximar, falou em tom de brincadeira:
– Hoje, eu estou doido para ver um corno!
José  Areia respondeu:

– Entre aqui no café. Vou lhe mostrar o maior corno do mundo!

E em frente ao espelho, disse:

– Veja ali! É aquele que está junto de mim!!!

Era o próprio professor.

José Areia nunca se preocupou muito com o seu conforto pessoal, vivendo modestamente. Era barbeiro, mas pouco ia à sua barbearia, que funcionava sempre na sala da casa onde morasse.  Sempre preferiu a vida de boêmio, sem se preocupar em acumular dinheiro.
Sua inteligência privilegiada, sua verve irônica, suas respostas na ponta da língua e sua simpatia, conquistavam a todos, e lhe facilitavam a venda de loterias ou rifas, de qualquer coisa, sendo capaz de vender urubu por papagaio, como fazia com os americanos, no tempo da Segunda Guerra.

Amigo de juventude do natalense João Café Filho, qual não foi a sua alegria ao ver o amigo chegar à Presidência da República. Viajou para o Rio, na esperança de conseguir um bom emprego, conforme o amigo lhe havia prometido.

Ao chegar ao Palácio, foi atendido por um secretário, que não permitiu sua entrada, e ainda lhe transmitiu o recado de que o emprego disponível no momento era o de seringueiro na Amazônia.

Indignado, José  Areia teria disparado, no ato:

– Meu amigo, você diga pra Café Filho que quem veio aqui foi o amigo dele, Zé Areia, atrás do emprego que ele lhe prometeu, quando subisse na vida. Diga também, que ele se lembre de que, no Rio Grande do Norte, quem tira leite de pau é “bu…….!” Um emprego desse, eu não quero!!!

Certa tarde, melancólico num botequim, José Areia contava sua desdita. Fora casado, tivera lar, esposa e filhos, mas a mulher não aguentara sua vida boêmia e as incertezas dos dias sem ter o que comer com os filhos. Certa madrugada, ao voltar para casa, não encontrou nem mulher, nem filhos, nem móveis. E José Areia confessou que ficou louco de aperreio, não por ela, mas pela saudade dos filhos.

Terminou localizando a nova moradia da ex-mulher. Agora, tida e mantida pelo Coronel Teodósio, conhecido chefe político, poderoso e rico, .

Cheio de alegria, Zé Areia foi à procura dos filhos. Estava brincando com eles, quando salta dum cavalo o tal coronel Teodósio, rebenque na mão e falando grosso:

– Boa tarde, seu Areia!

Assustado, contava José Areia que só fez desengalhar o chapeu da galhada de chifres e respondeu, educadamente:

– Boa tarde, coronel Teodósio, Deus guarde Vossa Senhoria e suas excelentíssimas famílias!

E foi embora assustado, deixando a mulher em paz.

 

 

 

Violante Pimentel – Escritora

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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