A SÍNDROME LABUBU –
Durante viagem recente, vivenciei uma daquelas ironias que só o tempo e o mercado conseguem desenhar com perfeição. Estava no outro lado do mundo, quando via whatsapp, minha neta, me fez encomenda interessante, pois para mim era uma peça desconhecida, mas disputadíssima, daquelas difíceis de ser encontrada até nos pontos mais exclusivos e, claro, com um preço tão salgado quanto o prestígio que carregava.
A alegria de finalmente tê-la adquirido, misturava-se ao orgulho de antecipar uma tendência, de estar um passo à frente, pois entregaria à um dos meus amores, a tão sonhada “Labubu”, monstrinho com aparência peculiar criado pelo artista japonês Kasing Lung, que conquistou o planeta por sua irreverência.
Porém, semanas depois, o que antes era exclusividade, passou a ser encontrado em todos lugares ao mesmo tempo. Réplicas surgiram aos montes, barateadas, reinventadas, e distribuídas com agilidade impressionante.
A peça que me custou tanto esforço (e investimento), agora se exibia pendurada em banquinhas de esquina, dividindo espaço com capas de celular e óculos de sol genéricos. O que era luxo virou quase figurino de rotina.
Ainda assim, algo curioso persistia: as longas filas na porta das lojas de grife em São Paulo, Nova York, Caicó, Tokio e Paris, não diminuíam, pelo contrário, pareciam crescer, com gente (como eu) disposta a pagar até dez vezes mais pela peça original, não apenas pelo objeto em si, um personagem possuidor de expressão tanto travessa, com dentes a mostra e olhos esbugalhados, mas pelo símbolo que ele representava.
Facilmente entendi que a diferença não estava apenas na costura ou no tecido, mas na assinatura, na experiência e, sobretudo, na sensação de exclusividade, ainda que efêmera. Era como se o desejo não estivesse na peça, mas na história que ela contava. E, às vezes, esse relato é o que de fato não tem preço.
Lembro que ao receber o pacote lacrado, sem nem mesmo saber o modelo que trazia dentro, Beatriz o segurou, com o cuidado de quem reconhece o valor do que é único, e não se acha em qualquer prateleira, e assim com brilho nos olhos, e o presente entre as mãos, para ela, o mundo parecia um lugar mais bonito.
Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras
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