Venâncio e Zélia começaram a vida de casados em Natal, abrindo uma pequena cantina, na parte inferior do sobrado de esquina, onde passaram a residir. A rua era calma e o bairro, um dos melhores da cidade. O casal teve dois filhos.

Na cantina, eram vendidos produtos simples, como manteiga, óleo, biscoitos, chocolates, refrigerante e cerveja. Os fregueses bebiam em pé.

Após algum tempo, um amigo de Venâncio, que morava perto e frequentava a cantina diariamente, deu-lhe de presente duas mesinhas de quatro cadeiras. Uma delas o amigo mesmo ocupava, logo pela manhã. Ali sentado, lia os jornais do dia e iniciava o bate-papo. Venâncio gostou do presente e com o tempo, comprou mais duas mesinhas iguais. Foi um “chama”, e os cervejeiros se tornaram frequentadores habituais. Quase todos eram seus colegas de juventude. O movimento aumentava nos finais de semana.

Dois anos depois, Venâncio se viu dono de um misto de cantina e bar. Ali, diariamente, os amigos se reuniam para molhar a palavra e bater papo.

Ele mesmo servia às mesas e tomava conta do caixa. Entre um atendimento e outro, também tomava sua cervejinha.

Os tira-gostos eram preparados por uma ajudante, e se resumiam a queijo de coalho assado e caldo de feijão ou peixe.

Na cantina, Venâncio era adepto da lei do silêncio. Detestava som, por melhor que fosse. Gostava de conversar e ouvir boas conversas. Tinha cultura geral e estava sempre atualizado com os acontecimentos locais, como também do País e do mundo.
Para não atrapalhar as conversas, Venâncio colocou na parede um aviso “sui generis”:

‘É PROIBIDO SOM DE QUALQUER TIPO, INCLUSIVE DE CARRO.”

Outro aviso que havia na parede:

“NÃO ATENDEMOS A PESSOAS JÁ EMBRIAGADAS.”

Venâncio mantinha, dentro da gaveta do balcão, um “cartão vermelho”, para expulsar quem procurasse fazer confusão.

Como de grão em grão, a galinha enche o papo, às vezes, por volta das 20 horas, ele estava “triscado” e, sob protestos dos frequentadores, avisava que ia fechar a cantina. Assobiando, descia as portas de ferro, forçando a saída de todos. E se justificava:

– É ordem da “federal”…

A “federal” a que Venâncio se referia era a esposa, com a qual entrava em choque, quando se embriagava. Os clientes saiam contrariados, mas no dia seguinte, estavam todos lá novamente.

Fora a expectativa do inesperado “toque de recolher”, dado pela “federal”, o bar de Venâncio era um reduto de antigas amizades, fortalecidas através do tempo. Era um ponto de encontro de homens inteligentes e cultos, boêmios ou não, que iam ali para bater papo e colocar os assuntos em dia.

Violante Pimentel  –  Escritora

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