Gonçala e Matilde, duas irmãs solteironas, que moravam na mesma casa, em Natal, eram mal- humoradas e se agrediam muito. As duas já tinham dobrado o “cabo da boa esperança”, e estavam na casa dos setenta anos. À medida que o tempo ia passando e elas envelheciam, mais aumentava a mútua intolerância. Mas, no fundo do coração, zelavam uma pela outra, demonstrando assim que, apesar de tudo, as duas se gostavam como irmãs.
Gonçala, professora aposentada, era responsável pelas despesas e administração da casa. Matilde, de prendas domésticas, sempre gostou de fazer crochê e fazia trabalhos belíssimos. Não lhe faltavam encomendas de toalhas de mesa e colchas de cama.
As duas irmãs usavam dentes postiços, que só tiravam para dormir. As respectivas “pererecas” pernoitavam em copos com água. Era o costume da época, quando não havia implante dentário nem próteses dentárias fixas. Somente os donos das próteses conseguiam olhar para esses copos, sem sentir asco.
Num dia de domingo, Gonçala acordou um pouco tarde e foi logo ao banheiro, à procura da dentadura. Não encontrou o seu copo no lugar de costume. Fez, então, uma vistoria inglória por toda a casa, na esperança de encontrá-lo. Após perguntar à empregada, ao irmão e à cunhada, que estavam passando na sua casa o fim de semana, se tinham visto o referido copo, voltou-se contra a irmã Matilde, que era o seu “saco de pancadas”. Acusou-a de ter-lhe “roubado” a dentadura, que era de luxo, pois tinha dois dentes de ouro, herdados da sua avó, Dona Xinu.
Numa crise histérica, Gonçala partiu para a irmã, tentando abrir-lhe a boca à força, à procura dos seus dentes postiços. Indignada, Matilde trincou os dentes e tapou a boca com as duas mãos, não se sujeitando à tamanha humilhação.
Nesse ínterim, a casa toda entrou em polvorosa. A empregada, o irmão casado e a esposa tentaram acalmar a idosa, mas não houve jeito. Gonçala continuou culpando a irmã pelo “roubo” da dita cuja. Chamou-a de “ladrona safada”, injuriando Matilde, que, revoltada diante da injusta acusação, sofreu uma grande crise de choro.
Depois da briga tirana, quando os ânimos se acalmaram, Matilde saiu e foi passar o dia na casa de uma sobrinha casada, para desparecer.
Gonçala, ainda muito contrariada, foi tomar banho. Para sua surpresa, encontrou, sobre um banquinho que mantinha dentro do box do banheiro, o copo, com as suas “pererecas”, superior e inferior.
Cuidou logo de lavá-las e colocá- las na boca. Saiu do banheiro com um sorriso sem graça e bastante desconfiada.
Envergonhada, jurou para si mesma que não diria a ninguém onde tinha encontrado a dentadura. Esse segredo levaria para o túmulo. Por orgulho, nunca pediu desculpa à irmã. Matilde, por sua vez, nunca esqueceu a injúria de que fora vítima. O seu ressentimento durou até o fim de seus dias.
Violante Pimentel – Escritora
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