Será sempre uma batalha tentar enquadrar detalhes dos sons dos verbetes com o modo como eles são escritos e pronunciados, acentuados ou não.
Começo tais desencontros com um exemplo gramatical raiz, como forma de aquecimento: a palavra “oxítona” é proparoxítona. E não fica por aí. A corda continua sendo esticada por razões sociais e políticas .O caso do “todos e todas” (ou o contrário, como queiram) que está a seguir como parâmetro de engajamento e polidez na comunicação escrita e oral.
“Todos”, no masculino plural, por norma bem estabelecida , por si só se cabe. Engloba todos os gêneros de seres humanos em grupos mistos. Não se trata de violação de regra linguística de maneira alguma.
Só que no meu jeito idiota de ser e pensar, reputo a união dos dois a um só tempo como desnecessária e, sobretudo, brega. Afinal, já existe o decantado “meus senhores, minhas senhoras”, meus senhores. Para mim , chega.
Regras são regras e como tais deveriam ser seguidas. A forma correta de escrever a palavra “gratuito” , por exemplo, é sem acento gráfico, e a pronúncia com o som mais forte no “u”, formando um ditongo.
Se a palavra “gratuito” levasse um acento no “i” ela seria classificada como paroxítona. Acontece que muitos “podcasters”, alguns deles cultos e eruditos de fato, pronunciam a palavra separando o “u” do “i” criando um hiato errático ( gra-tu-í-to). Se a pronúncia estivesse correta seria uma proparoxítona e deveria ser obrigatoriamente escrita acentuada. Na formatação da língua portuguesa, me pareceria inexistir tal possibilidade.
Muitos outros deslizes de prosódia e ortoépia acontecem no dia a dia. Me chegam à cabeça outros dois verbetes de forma randomizada , “rubrica” e “filantropo”.
Até as letras do nosso alfabeto sofrem ataque: o “E” é um exemplo interessante. O som dele deve ser aberto. Como TSE, já que a sigla está tão em voga.
Sem falar nos timbres. A melhor maneira de entendê-los seria constatar diferentes sons emitidos: “sede” , enquanto vontade de beber ou quando designa um local; “colher” e “rio” como verbo ou substantivo; ou ainda, fluido e fluído, e por aí vai.
As variações da escrita e o som das palavras modificam portanto o sentido delas. A depender do contexto aplicado.
São tantas as dessincronias de som, de ritmo e de escrita; e tão amplas as interpretações a partir delas que dão margem a alterações de sentido dependendo diretamente do contexto aplicado ou pressuposto. Dariam margem a verdadeiras fábulas fabulosas, como diria o Millôr.
Era uma vez , no tempo em que costumavam ser preenchidos cheques e ainda existiam ascensoristas; um cara de posses, perdulário ao extremo. Findou falindo. Desabafando com um velho amigo, ouviu dele o começo de uma proposta bem objetiva: “eu poderia ajudá-lo se você me der …”
A oração foi imediatamente interrompida. “ Você está pensando o quê ? Estou tomando no contrafluxo da vida, isso, sim. No lugar que você está pensando , em mim só tem saída, entrada , necas”. O argumento deve ter despertado certa lascívia no proponente, que retorquiu de forma um tanto perfunctória. “ Você quem sabe, meu querido amigo”.
Após os prolegômenos e ao final dos “principalmente”, nosso herói sai do apartamento com um cheque polpudo no bolso .E na cabeça , uma ambivalência atormentante.
O ascensorista o cumprimenta: “Boa noite”. “Desce?” “Dei. É meu e o senhor não tem nada a ver com isso”.