CRÔNICA DO ANOITECER –
A minha mãe faria, dia trinta de maio de 2026, 125 anos de idade. “Meu filho não sinto nenhuma dor. O problema é a vista”, queixava-se com regularidade. Nos últimos trinta dias de vida, teve três internações hospitalares motivadas por sintomas diversos: hipertensão, hipotensão, (isquemia provisória) e um pré-edema, do qual não se restabeleceu. No hospital, comportava-se com rebeldia. Criava manhas e artimanhas para forçar a liberação médica. Detestava o soro e a nebulização. Certa vez, deixou Nídia (minha irmã) e eu preocupados quando disse: “Errei muito em ter casado de novo”. “Mamãe, a senhora só se casou uma vez”, consertamos, após o Dr. Eimar Fernandes, seu médico, havê-la medicado. Como ela insistia nesse absurdo argumento, resolvi indagar: “Diga-me quem é o meu padrasto, pois não o conheço”. “Esse que saiu daqui agora”, respondeu apontando para a porta de onde saíra Dr. Eimar. Risos. Tudo pretexto para ir pra casa, descobrimos. Em sua morada em Macaíba, gostava de cantar a “Jardineira”, “Pé de Serra”, “Tai” e solfejar a valsa “Royal Cinema”. São símbolos eternos da sobrevivente alegoria musical que a memória ainda não havia apagado. “Partido Social Democrático, marca registrada”, gostava de repetir quando brindávamos o refresco à hora do almoço. “Comunismo, pra lá…”, gostava de sublinhar a frase com um gesto de desprezo com as mãos erguidas.
Certa vez, lembrou-se de um sinistro ocorrido quando tinha 19 anos. Contou que o seu avô paterno morrera na explosão de uma casa de fogos de artifício, sendo jogado no meio da rua.” Chamaram o vigário. E o meu avô confessou: “Padre, fiz tudo na vida, só não fiz roubar”, concluía a história como se tivesse um sabor especial a narração dessa tragédia. Entre os ouvintes, faltava-lhe alguém que confirmasse a história, como pedia o costume antigo. Sem se aperceber do deslize da pergunta, arrisca fazê-la dirigindo-se ao comerciante Neto Soares, nosso vizinho, com a idade dele ser o seu bisneto. “Conheceu vovô Galdino?”. Desconcertado e por polidez e respeito: “Conheci D. Nair”. “Eu não disse!”, confessava a anciã, abrindo um sorriso de felicidade.
Minha mãe sofreu duas quedas e em ambas fraturou o fêmur. Anda com dificuldade, amparada por duas pessoas. Tinha horror a cadeira de rodas. Sempre sofreu de reumatismo. Quando completou oitenta anos, levei-a a um conhecido reumatologista de Natal que lhe prescreveu remédios fortes que provocaram efeitos colaterais. Voltei ao médico e lhe informei da ocorrência. Respondeu que as reações eram passageiras e que continuasse com a medicação. Atenuei-lhe que seria de bom alvitre não prosseguir, porque eu mesmo havia lido a bula e suas precauções. “De medicina entendo eu e você de política”, respondeu-me secamente. “Mas de minha mãe eu entendo melhor”, retruquei em cima da bucha. Suspendi os remédios e fui procurar na flora medicinal a saída. Achei a gelatina de peixe. Consultei o seu cardiologista que explicou que não a afetaria em nada. Decorreram 21 anos, tomando quatro comprimidos diários de gelatina de peixe e não se queixou mais das dores nas pernas e juntas. Acreditem.
Essa foi a sua rotina nunca perturbada, salvo por um cochilo. Dormia em rede, há muito tempo. Escutava muito pouco. O jardim que não cuidava mais diretamente era o objeto de suas preocupações e perguntas permanentes. Após o banho, “derramava” perfume na roupa e na cabeça. “É para os meus filhos, quando chegarem”, avisava. Serena, esperava a noite. Algumas vezes, sozinha com a enfermeira. Quem vem conversar com uma anciã de cento e um anos de idade? Dia trinta, essa flor aniversaria. Ficaria mais jovem, mais bonita, no mistério indecifrável dos mesmos dias e das mesmas noites.
Nair de Andrade Mesquita – 30 de maio de 1901(*) – 04 de abril de 2003 (+)
Valério Mesquita – Escritor, mesquita.valerio@gmail.com
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