A FORÇA INVISÍVEL DO DRAGÃO – Alberto Rostand Lanverly

A FORÇA INVISÍVEL DO DRAGÃO –

Em uma de minhas viagens, chegando a Cardiff, no País de Gales, descobri que antes de reis e castelos existia ali um dragão, rubro como o pôr do sol, feito de coragem e mistério, seu coração ardia com a mansidão de quem encontrou afeto após longas guerras, e nele havia um segredo raro: sua essência tocava a do próprio homem, pois era guiado, com devoção silenciosa, por um tutor humano.

Por este motivo, conseguia mostrar que ninguém é tão imponente que não possa ser ungido pelo amor, ou feroz a ponto de não se enternecer, pois a grandeza verdadeira não está na força que se impõe, mas no afeto que se oferece, tal qual o brilho tranquilo que surge nos olhos de um avô, quando seus descendentes lhe sorriem.

Se por um lado, o dragão era pura força, com asas que rasgavam a noite, fogo que domava tempestades, garras que intimidavam o próprio destino, seu guardião, porém, simbolizava o ser racional comum, sensível às sombras da própria alma e organismo.

Então, sempre que aquele seu inspirador cedia à tristeza, dúvida ou até mesmo simples mal estar, o dragão cambaleava, fogo apagava, asas pesavam, couraça perdia brilho, ele até chorava, pois a fraqueza da pessoa refletia-se no monstro, como se fossem um só coração dividido em dois corpos.

Hoje, olhando para meus netos, entendo existirem amores, lealdades e pactos tão profundos que a força não se partilha igualmente, mas se doa. O dragão era invencível, mas sucumbia à fragilidade daquele que amava, o tutor, menino herdeiro do seu sangue, possuía limitações, mas se erguia gigante quando a fera alada precisava.

Nessa assimetria, tão matemática, mas humana e mítica, que a lenda encontra sua verdade entre um avô e seu neto: há vínculos em que a debilidade de um, pode ferir o outro, mas a grandeza do afeto, sempre faz alguém se tornar mais forte do que jamais imaginou ser.

E se, nas montanhas onde a névoa nunca dorme, vivesse um avô-dragão de escamas antigas, brilhando como brasas eternas? Não guardaria tesouros, apenas o desejo pela saúde de sua amada criatura de luz, portando no peito, mundo de memórias partilhadas, e ao abraçá-la, descobriria que a vida ainda oferece surpresas suaves, luminosas e imortais.

 

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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