UM PREGO, A LUA E O VELHO CHICO – Alberto Rostand Lanverly

UM PREGO, A LUA E O VELHO CHICO –

O final da tarde já se despedia quando retornava de viagem pelo interior de Alagoas. O sol, avermelhado, parecia repousar lentamente sobre as margens do Velho Chico, enquanto pequenas nuvens de poeira levantadas pelos veículos dançavam sobre a estrada.

Foi então que o painel do carro chamou minha atenção: um dos pneus perdia pressão rapidamente. Parei em um pequeno povoado às margens do Velho Chico e descobri o problema: um prego havia rasgado o pneu. Para piorar, não havia estepe.

Logo alguns moradores se aproximaram para ajudar. Informaram que não havia borracharia por perto, apenas na cidade vizinha, a cerca de vinte e cinco quilômetros. Também indicaram uma hospedagem simples sobre uma padaria, em frente à praça.

Enquanto resolvia a hospedagem, uma cena chamou minha atenção. Haviam vários indígenas da região reunidos no local. Estavam vestidos de forma tradicional: tangas, corpos pintados com cores vibrantes, cocares ornamentados, tacapes, lanças e flechas. À primeira vista, pareciam personagens saídos de um livro de história, prontos para uma batalha ancestral.

Instalado no quarto, cuja janela dava para o Rio São Francisco, vi a lua cheia refletida nas águas. O silêncio, quebrado apenas pelos sons da natureza, transformou o contratempo em privilégio.

Na manhã seguinte, um motoqueiro levou-me até a cidade vizinha, onde consegui comprar um pneu e seguir viagem.

Hoje, ao recordar aquele episódio, percebo como a vida gosta de nos surpreender. Um simples prego, perdido em alguma estrada do sertão, alterou meus planos e obrigou-me a uma parada inesperada.

Em compensação, presenteou-me com uma noite sob a luz da lua refletida no Velho Chico, com a hospitalidade de um povo generoso e com uma experiência que jamais teria vivido se tudo tivesse ocorrido exatamente como eu havia planejado.

Coisas da vida. Às vezes, um prego não fura apenas um pneu. Abre também uma janela para momentos que permanecerão para sempre na memória.

 

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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