UM LIVRO EM NOSSA VIDA –
Adquirido em um aplicativo de vendas virtuais, estou recebendo um exemplar usado e antigo do livro Programa de Admissão ao Ginásio, dos anos 1950/1960, para ocupar o lugar do exemplar original há muito tempo perdido e chorado, desde o tempo em que a morte da minha mãe, a poucos meses de fazer 43 anos, desagregou a família, dispersou os irmãos e fez extraviar alguns caros pertences e estimadas relíquias pessoais. Um Catecismo de capa brilhante, um terço com as contas de plástico, álbuns de figurinhas e vários gibis estavam entre as perdas.
O título do livro revelava o objetivo, que era a preparação dos alunos do curso Primário para o ingresso nos antigos Ginasial e Científico. Em uma busca, eu soube de muitas pessoas com a intenção de adquirir a raridade. Em Natal, consultando os sebos mais tradicionais, fui informado da dificuldade de obtê-lo, porque essa seria uma das obras mais procuradas pelos colecionadores, ou saudosistas de uma época em que os livros didáticos eram utilizados, tratados e guardados com zelo e carinho.
Reunidas no único volume do Admissão constavam as matérias tradicionais estudadas nos primeiros anos de escola: História, Geografia, Matemática e, naturalmente, Português, sendo esta última o motivo maior da minha procura, por conter, além dos temas da gramática, alguns pequenos e conhecidos textos de famosos autores nacionais, que, de tão lidos e amados, eram até decorados por nós. Muitos devem recordar dos mais emblemáticos: Oração à Pátria (ou título parecido), de Olavo Bilac, e A Assembleia dos Ratos, de Monteiro Lobato. Fazem parte desse caudal de nostalgia a velha e amada Cartilha de ABC – um singelo, porém eficaz, manual para a compreensão das primeiras letras (um b com a, be-a-bá, um b com e, be-e-bé) – e a popularíssima Tabuada, que nos ensinava a utilidade e desvendava os mistérios de todos os números e sinais e suas aplicações nas quatro contas: dividir, somar, diminuir e multiplicar. Muita dedicação e até decoreba era utilizada para fixar na mente os termos das tabelas para tantos cálculos. E os livros, por força do nosso pequeno poder aquisitivo, eram sagradamente reaproveitados pelos irmãos mais novos, e até cedidos para outros parentes e vizinhos que, pela carência, tinham dificuldade para adquiri-los. De todo o material didático, apenas os cadernos podiam ser descartados no fim do período letivo. Mas havia aqueles que mantinham, por longo tempo em seu poder, o resultado das suas anotações, textos e exercícios, guardados com desvelo e cuidado com a possibilidade de futuras consultas.
Aos poucos, porém, essas práticas e necessidades do passado foram banidas dos nossos costumes. A sofisticação e a variação dos métodos de ensino forçaram a diversidade cada vez maior do material didático. São raros os livros destinados à simples leitura, e a maioria deles está cheia de espaços para as anotações e os exercícios que antigamente eram feitos apenas nos cadernos, causando uma exaustão que impede o seu reaproveitamento. Tornaram-se descartáveis, também, pela necessidade e interesse das editoras, que não devem achar nenhuma graça na perenidade ou na sobrevida do material, quando podem lucrar muito mais com a provocada e obrigatória demanda anual dos livros da sua produção. O sistema, de certa forma, é alimentado pela conivência ou acomodação dos educadores, impotentes diante da avassaladora influência desses esquemas comerciais, e até das autoridades, que sempre estiveram à disposição dos incontáveis lobbies incrustados, principalmente, nos Executivos e nos Legislativos federais, estaduais e municipais. E não podemos muito ou nada fazer. Nos resta a submissão às exigências dos novos tempos e à nostálgica lembrança de épocas mais puras e sentimentais.
Alberto da Hora – escritor, músico, cantor e regente de corais
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