TRÊS MUDAS E UMA VIDA INTEIRA PELA FRENTE –
Na bolsa, três mudas de roupa. E um coração que já não cabia em silêncio. Recentemente, eu assistia O Conto da Aia e o aperto não vinha apenas da tela, vinha das lembranças. Foram vinte e cinco anos caminhando na ponta dos pés, engolindo palavras, usando o corpo como escudo para proteger meus filhos. Vinte e cinco anos esperando que eles crescessem para que eu, enfim, pudesse me reconhecer inteira, sem precisar me esconder atrás de medos ou desculpas.
A decisão aconteceu numa noite, quando reuni meus filhos, já adolescentes, para uma conversa franca, sobre meus planos, lembro de ouvir do meu filho do meio dizer: Já vai tarde, né, mainha? Sem mala, sem roteiro. Apenas uma bolsa de mão, três mudas de roupa e o peito apertado de esperança. Fugir. A palavra mais áspera e, ao mesmo tempo, mais necessária que já saiu de mim. Nos dois anos seguintes eu tinha outro endereço, mas, ainda não tinha liberdade. Casa-trabalho, trabalho-casa. Perseguição, gritos, ameaças. O medo me acompanhava no banco do ônibus, no corredor do trabalho, na volta para casa. Ainda assim, eu não voltei. Permaneci firme, mesmo quando parecia impossível.
Sete anos me reconstruindo, fortalecendo, compreendendo que eu não era um resto de mim mesma, não era uma vida quebrada sem conserto. Foi nesse meio tempo que conheci João Dantas, hoje, meu marido. Um homem íntegro, parceiro, companheiro. Um homem que eu não sabia que existia. Tão diferente de tudo que eu conhecia que, por um tempo, duvidei se era real. Mas era, é. Sua presença me mostrou que aquilo que era meu estava apenas guardado, esperando o momento certo. Hoje eu sei: existe amor que não sufoca, existe afeto que não fere, existe vida que se expande sem pedir licença. E eu caibo. Nós cabemos. Cabemos inteiros, sem medo, sem feridas abertas, sem a necessidade de nos escondermos atrás de portas trancadas. João foi a prova de que o amor verdadeiro não é fantasia, mas realidade possível, como ele costuma dizer: amor é decisão. Nós decidimos nos amar.
Nos meus momentos de maior angústia, quando a solidão parecia insuportável, recorri aos livros. Lia para respirar, escrevia para não sufocar. Sangrei em letras, transformei dor em palavra, palavra em caminho. Foi assim que me tornei escritora. A escrita foi meu refúgio, meu grito silencioso, minha forma de sobreviver quando tudo parecia ruir, e nesse processo encontrei também o amor pelo qual vale muito a pena viver. O que parecia fim se transformou em começo. Dantas foi a prova viva de que a vida guarda o que é nosso, mesmo quando não acreditamos mais. E eu encontrei. Encontrei o amor, encontrei a paz, encontrei a mim mesma e ele é apenas uma parte, fundamental, desse processo.
Foram vinte e cinco anos de todas as violências possíveis e impossíveis. Sofri, superei, chorei, sorri, caí, levantei. Perdida, me reencontrei. Vinte e cinco anos foi muito tempo? Talvez. Ou talvez tenha sido exatamente o tempo necessário para me tornar quem sou. Porque o tempo é relativo: vinte e cinco minutos, vinte e cinco horas, vinte e cinco dias, vinte e cinco anos. Há quem apenas repare e há quem reconheça. Há quem julgue e há quem compreenda. E assim segue a humanidade, entre tropeços e aprendizados, entre dor e esperança. Eu espero que siga para melhor, que aprenda com as histórias, que se transforme com as vozes que não se calam.
Na bolsa, três mudas de roupa. Na vida, a coragem inteira. E agora, também, o amor inteiro. Porque se há algo que aprendi é que não se trata apenas de sobreviver, mas de viver plenamente. E viver, para mim, é não aceitar menos do que mereço. É não negociar dignidade. É não abrir mão daquilo que acredito. É saber que, depois de vinte e cinco anos, eu não apenas resisti: eu renasci.
Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, crônicasflaviaarruda@gmail.com
DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,3930 DÓLAR TURISMO: R$ 5,1840 EURO: R$ 5,9350 LIBRA: R$ 7,1060 PESO…
A Câmara dos Deputados aprovou nessa quarta-feira (12) um projeto de lei que cria uma nova…
Um adolescente de 14 anos foi atingido por uma bala perdida durante um ataque a…
A busca por sobreviventes do terremoto na Colômbia entrou em uma fase crítica. É que depois de…
A Justiça do Rio Grande do Norte determinou, nessa quarta-feira (12), a suspensão do processo…
O candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Allyson Bezerra (União) declarou à Justiça…
This website uses cookies.