Dalton Mello de Andrade

O tempo. Como ele corre! O titulo dessa crônica vem de um carrilhão que comprei no dia 7 de setembro de 1976, quando morava em Washington, num lugar chamado “Thief’s Market”, ou seja, “Mercado dos Ladrões”. Registram o relógio, quando você o compra, e colocam uma placa dourada com o seu nome e data. Até hoje, funciona à perfeição. E toca as badaladas do Big Ben.

E como corre, o tempo! Até que nem tanto, até você chegar aos 18. Lembro minha ansiedade em completar dezoito anos. Não pela maioridade em si, pois já tinha muita liberdade – meus pais não enchiam – mas, principalmente, para tirar minha carteira de chofer, como se dizia então. Chegado aos dezoito, quando menos esperei, chegava aos 85. Ainda bem, pois a alternativa é muito pior.

Tem momentos que você grava na memória. Esses dezoito foi um desses. Feliz, pela maioridade, pela carteira, por terminar o científico, por terminar ao mesmo tempo o de Contabilidade, pela perspectiva do vestibular próximo. E pelos planos que pululavam na cabeça. Um deles, hoje parece piada, era a esperança de chegar aos setenta anos. Com 18, quando olhava para 70, a distancia era enorme. Hoje, estou olhando para os 120!

Como o tempo corre! Os setenta chegaram rapidinho, os oitenta-e-cinco mais rápido ainda. As horas e os minutos se esvaem como água na torneira, numa velocidade que o deixa tonto. A única forma de aparentemente atrasá-lo é você ficar contando os segundos. Ou fazendo algo chato. Já observou? Aí ele não passa.

Interessante. Ao mesmo tempo em que ele flui velozmente, tem-se também a sensação de falta de tempo. Talvez por isso mesmo, por essa velocidade, inexorável. Sou madrugador e começo meu dia no máximo às seis da manhã, enroscado com este computador. Fico escrevendo estes trecos, lendo os jornais, vendo o descalabro que estamos vivendo e, pior, mesmo sendo um otimista, triste com as coisas do Brasil. E, acreditem, depois que me aposentei é que não tenho tempo para nada, mesmo. Leio, ouço música, toco meu pianinho, faço as obrigações do dia e, de repente, chegou a hora da cama, redor das onze.

Uma coisa que fiz foi deixar de ler obituários. Todo dia morre um amigo ou conhecido de minha geração. Todos deixam saudades, embora com alguns nem tenha tido maior convivência. Outros, me tocam muito de perto. E, de qualquer forma, vou saber que se foram. Sempre há alguém disposto a dar esse tipo de informação. Alguns telefonam. Agradeço. Prefiro saber assim, pois já tomei a decisão de não ir à velórios ou Missas de defunto. Mesmo que toquem o Réquiem de Fauré. Irei ao meu, sem dúvida, por absoluta impossibilidade de poder faltar. E que toquem Fauré.

Dalton Mello de AndradeEx Secretário de Educação do RN

Ponto de Vista

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