SIMPLIFICANDO – Ana Luíza Rabelo

SIMPLIFICANDO –

De acordo com a linha de pensamento geral, a classe influente exclui a classe influenciada. Mentira. Independente de quem cria os convencionalismos, tabus e preconceitos, são os objetos destes que os mantém vivos e fortes por gerações.

Quem permite, incentiva, auxilia e difunde o machismo são as mulheres; o capitalismo é disseminado pelos socialistas; a ditadura sobrevive apenas por força dos anarquistas.

A opressão necessita da aceitação e apoio do oprimido a fim de manter-se acesa. Nossa vida é coroada de contrassensos. A polaridade, a desarmonia e o antagonismo são as verdadeiras molas que movem o mundo. A literatura, de um modo geral, encarrega-se de difundir a ilusão de que os opostos se atraem, as diferenças se completam e a distância aproxima.

Como conceber a existência da greve? Ela incide apenas dentre os que desejam trabalhar. Os ociosos não podem fazer parte dela. Amor e dor, amor e ódio, são sempre citados, mas não deveriam permanecer na mesma frase, pois o amor não dói, não odeia, a rejeição é o verdadeiro estopim. Os pacifistas fazem guerra para a consecução de seus objetivos, os eleitores corrompem para serem corrompidos, o vinho bom só é devidamente apreciado após o conhecimento do vinho ruim. Yin e yang, claro e escuro, prazer e pecado, bem e mal, silêncio e barulho. Não são apenas antônimos no sentido gramatical, são adversários que duelam eternidade afora pela supremacia.

Na verdade, a natureza é sábia, e tudo que produziu o fez com perfeição, a noite e o dia, a correnteza dos rios, as estações do ano. O ser humano é o único insatisfeito, que contraria, domina e desorganiza a cadência ordenada da vida. Humanas criaturas que somos, com sentidos aguçados, permanecemos incapazes de apreciar o verdadeiro significado da simplicidade. Somos o lobo do homem e do mundo.

Como se consegue a paz através da guerra, a liberdade pela opressão? Não há motivos ou explicações para usar de meios tão tortuosos para atingir os fins. A dualidade dos atos humanos acabará por extinguir-nos em nome da preservação.

A maneira mais lógica de contornarmos a situação de caos atual é, infelizmente, a mais árdua, por ser a mais simples. Transparência no lugar de mentiras, diálogo em vez de debates. É uma lição fácil e, por isso, tão penosa. Trate aos outros da forma com que deseja ser tratado. Há dois mil anos matamos o nosso professor e agora teremos de aprender por nós mesmos o verdadeiro sentido de amor, justiça e sociedade.

 

Ana Luíza Rabelo Spencer, advogada (rabelospencer@ymail.com)

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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