REFORMA, SERVIÇO PÚBLICO E CLASSE MÉDIA – Ney Lopes

REFORMA, SERVIÇO PÚBLICO E CLASSE MÉDIA –

Aberto o debate nacional sobre a reforma administrativa. Esse é tema explosivo por aflorar preconceitos, em relação aos servidores, que sofrem campanha orquestrada de serem os responsáveis pelo “déficit público”.

Confesso ser titular de cargo público, filho, pai e esposo de servidores. Faço tal declaração, pelo fato da colocação do rótulo de “corporativista”, em quem defende essa categoria social.

O curioso é que a mesma acusação não se faz àqueles “lobbies” em defesa de outros segmentos, o que revela discriminação contra os 11.5 milhões de funcionários, participantes ativos do mercado consumidor.

Reformar a máquina pública é fundamental, desde que se desfaçam certas “fake news”. Denunciam-se “salários milionários”, quando existem distorções de minorias, que devem ser corrigidas.

Uma proposta objetiva de redução da desigualdade entre servidores é aplicar o teto constitucional, que traria economia de recursos e tratamento justo entre as diferentes categorias funcionais. A grande maioria está abaixo do teto.

Esconde-se, que o Brasil tem menos servidores (por habitante), que a média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) da ONU e remuneração média de servidor abaixo da média internacional.

Sobre “explosão de gastos” (2008/2019), os dados citados são valores nominais. Proporcionalmente, as despesas da União não se elevaram. Ao contrário, os salários estão congelados há mais de quatro anos, em mais de 80% do funcionalismo, acumulando defasagem próxima de 40%.

Da mesma forma que ocorreu com a reforma previdenciária, o risco são os ímpetos do falso liberalismo, com o único objetivo de reduzir drasticamente o papel do Estado e entregar a sociedade, de mão beijada, ao controle da lei da “oferta e da procura”.

Cabe fazer justiça a posição assumida pelo Presidente Bolsonaro, ao decidir que as mudanças não atingirão os atuais servidores. Está provado, que o chefe do governo não esqueceu as suas raízes de servidor público. Ele nunca foi servidor do mercado.

Para quem discorde do Presidente é bom lembrar que os servidores vêm sendo onerados há anos. Lula, em 2003, obrigou aqueles já aposentados pagarem contribuição previdenciária. Foi a primeira vez em que beneficiários com direito adquirido sofreram descontos.

Na última reforma da previdência, elevou-se para até 22% a contribuição dos servidores e as regras de transição ampliaram em até 10 vezes o tempo faltante para aposentadoria, além de perdas entre 10% e 50% das aposentadorias futuras dos funcionários públicos. Em caso de falecimento, a pensão foi reduzida em 50%, frustrando o planejamento de anos e anos, cujo rendimento seria a garantia do cônjuge sobrevivente.

Os servidores públicos representam a classe média e por isso aquecem a economia e a receita pública. Os seus rendimentos são taxados na fonte, sem subsídios, incentivos fiscais, juros reduzidos, ou sonegação.

Não prejudicar os direitos dos atuais “servidores de carreira” é ato de justiça, por serem pessoas com histórias de vida, que não podem ser confundidas com “exceções”, que se locupletam de penduricalhos e rendas exorbitantes, além do teto constitucional. Aplica-se o ditado popular: “o justo não paga pelo pecador”.

É o caso de indagar: seria justo, na reforma tributária, onerar a empresa com novos tributos, para compensar a sonegação e o crime organizado, que aumentaram o déficit público?

A mesma injustiça ocorreria com o servidor público de carreira, caso tivesse os seus direitos negados, após haver planejado o futuro e a velhice, em função dos rendimentos que as leis lhe concederam.

Se há “parasitas”, como disse o “tzar” Paulo Guedes, deverão ser eliminados. Nunca aprovado o desmonte do estado, que se assemelharia a quem destruísse o hospital, sob alegação da existência de bactérias.

A verdadeira reforma administrativa contribuirá para a eficiência do estado, na execução de suas funções, através do reconhecimento da meritocracia, que melhorará o serviço público e premiará o agente capacitado, investido na função pelo empenho, dedicação e merecimento pessoal.

O desafio pós pandemia será a “divisão equânime de sacrifícios”, dando origem a novas receitas públicas no enfrentamento da crise. Sem essa ótica, tudo não passará de “conversa para boi dormir”.

Não se justifica buscar “receita pública” na reforma administrativa, transformando-a em “mão única”.

Afinal, a “classe média, o servidor, civil e militar, não devem pagar o pato sozinhos”, até porque já contribuíram com perdas de direitos.

 

 

Ney Lopes – Jornalista, advogado e ex-deputado federal, nl@neylopes.com.br

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,1190 DÓLAR TURISMO: R$ 5,3240 EURO: R$ 5,8330 LIBRA: R$ 6,8250 PESO…

12 horas ago

Prompt injection: entenda o ‘código secreto’ que professor usou para flagrar uso de IA em trabalho

Um professor universitário viralizou nas redes sociais ao contar que reprovou 32 de 35 alunos…

12 horas ago

Conselho autoriza pagamento de R$ 13 bilhões do lucro do FGTS a 138 milhões de trabalhadores

O Conselho Curador do FGTS autorizou o pagamento de R$ 13,04 bilhões relativos ao lucro do Fundo de Garantia…

12 horas ago

Açude rompe e destrói estrada e plantações no interior do RN

O açude Outeiro, um barragem particular na zona rural de Canguaretama, distante cerca de 75 km…

12 horas ago

Menina de 2 anos morre afogada após cair em balde no quintal de casa em Natal

Uma menina de dois anos morreu afogada na noite desta segunda-feira (27) após cair dentro…

12 horas ago

Adolescente suspeito de matar homem em hotel de João Pessoa já foi alvo de 17 boletins de ocorrência, diz polícia

O adolescente suspeito de matar Washington Rodrigo, de 33 anos, encontrado morto em um quarto de…

12 horas ago

This website uses cookies.