QUEM FAZ O MELHOR, A MAIS NÃO SE OBRIGA –
Confissão só se faz a padre. Ele lhe escuta, lhe perdoa, e manda você rezar tantas Aves Maria e Padres Nosso, em função do que ele considerava da gravidade maior ou menor do seu pecado. Já houve um tempo em que você pagava com indulgência, e tinha sua entrada garantida, independentemente do tamanho de seu pecado. Lutero acabou com isso.
De família católica, pratiquei todos os atos recomendados. Batismo, crisma, catecismo, Missa. O tempo foi mudando e com ele o meu entendimento, e passei a ser um liberal (ou libertino?) no que se refere a tudo isso. Acho que não tenho pecados, pelo menos daqueles chamados cabeludos. Quando sinto que fiz algo errado, procuro corrigir e, se tenho que confessar, o faço diretamente a Ele, sem intermediários, como diria Voltaire. Mas prefiro, se tenho mesmo algo a confessar, fazê-lo publicamente, como agora.
Amigos têm reclamado por não ter escrito mais. Confesso, e aí está minha confissão aberta, um pecado que muito me atrapalha, a preguiça; e o outro dela resultante, a falta de inspiração. A preguiça é mais séria, pois quando consigo coragem para escrever, a inspiração até que aparece. E procuro seguir o conselho acima, velho ditado português que sempre me ajudou. E aí volto um pouco ao passado.
Quando fui fazer meu mestrado em Administração numa universidade americana, o Diretor do curso veio nos dar a primeira aula e começou dizendo: se vocês pensam que vão fazer as coisas, estão no lugar errado; vão para Engenharia. Aqui, vocês vão aprender a mandar. Foi das coisas mais úteis que já escutei. E, aqui para nós, até que aprendi a ser mandante, não mandão. Há uma diferença, o mandante o faz com paciência, tranquilidade, explicações, e se oferece para ajudar, se tiver alguma dúvida. O mandão, manda.
Ao voltar com o trabalho para a minha análise, dizia o ditado acima mencionado. O sujeito saía feliz da vida e ficava sempre aguardando novas ordens. Quando não era exatamente o que esperava, citava o ditado e conversava com ele, dizia que podia fazer melhor e responder fácil as expectativas do inteligente ditado. O sujeito aceitava meus argumentos, não ficava chateado, voltava e ia melhorar o seu trabalho que, quando me era reapresentado, correspondia a minha expectativa e eu lhe dizia: quem faz o melhor, a mais não se obriga.
É o que peço a vocês nesse final. Se acharem que posso melhorar, é só dizer. Mas, eu sei que posso, quando diminuir o grande pecado da preguiça.
Dalton Mello de Andrade – Escritor, ex-secretário da Educação do RN
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