QUANDO A CIZÂNIA AMEÇA A CONFIANÇA NA REPÚBLICA –
O momento político brasileiro nos convida a uma reflexão que vai além das preferências partidárias. A cada confronto entre autoridades, a cada nova acusação, a cada controvérsia institucional, cresce uma inquietação silenciosa: quem está cuidando da confiança do cidadão nas instituições?
Divergir faz parte da democracia. É saudável, é necessário. O que preocupa é quando a divergência se transforma em hostilidade permanente, e cada adversário passa a ser visto como inimigo e cada decisão, como oportunidade de revanche.
Sob o olhar jurídico, é preciso reafirmar um compromisso elementar: todos estão submetidos à Constituição. A independência dos Poderes exige respeito às competências de cada um; a harmonia exige diálogo e responsabilidade. Fiscalizar, investigar e cobrar explicações são deveres republicanos, mas devem ser exercidos com fundamento e com respeito às garantias de todos.
A sociedade tem direito a respostas. Acusações precisam ser apuradas com seriedade, provas devem ser examinadas com imparcialidade e responsabilidades devem ser individualizadas. O devido processo legal, a ampla defesa e a presunção de inocência protegem qualquer cidadão, independentemente de sua posição política.
Também precisamos recuperar a coerência. Não podemos defender uma garantia quando ela beneficia alguém de nossa preferência e desprezá-la quando protege quem pensa diferente de nós. A credibilidade da Justiça e da política depende, em grande medida, dessa disposição de aplicar os mesmos critérios a todos.
Como advogado e cidadão, preocupa-me ver a disputa pelo poder ocupar o espaço que deveria ser dedicado às necessidades da população. Enquanto autoridades se enfrentam, famílias continuam esperando por segurança, atendimento de saúde, educação de qualidade e condições dignas de vida. São elas que pagam o preço de cada briga que não leva a lugar nenhum.
Superar a cizânia exige disposição para ouvir, humildade para reconhecer erros e firmeza para apurar eventuais ilegalidades, inclusive quando envolverem aliados. Cada autoridade precisa compreender que o cargo que ocupa não é um privilégio, mas um dever: o de prestar contas e servir à sociedade.
O Brasil precisa de instituições que inspirem confiança e de lideranças que compreendam o peso de suas palavras. A Constituição deve orientar nossas atitudes, sobretudo quando as paixões políticas tornam mais difícil respeitá-la. Afinal, é justamente nos momentos de tensão que se revela o verdadeiro compromisso de cada um com a democracia.
Raimundo Mendes Alves – Advogado, procurador aposentado e vereador em São Gonçalo do Amarante/RN
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