POUCAS E BOAS  CARNAVALESCAS – Valério Mesquita

POUCAS E BOAS  CARNAVALESCAS –

01) O deputado Ricardo Mota observador atento da cena e espirituoso como sempre, certa vez,  retornando a Natal após passar o Carnaval em São Paulo, foi indagado se havia assistido o desfile do Salgueiro onde desfilaram Garibaldi e Vilma Maia. Motinha, sem perder a calma, gracejou sem pestanejar: “Vi… Lampião e Maria Bonita…”.

02) Uma das figuras significativas e populares do carnaval de Macaíba não poderia faltar a essa galeria: José Batata. Zé Batata, já falecido, era eletricista da Cosern. Dos anos sessenta aos noventa animou a folia de rua com a sua tribo de índios, da qual era o cacique e senhor de todos as pajelanças. Gostava de exagerar nos adornos até mesmo fora do tríduo momesco, exibindo uma enorme aranha preta no peito, mesmo vestido com a farda do trabalho. Batata era também um boêmio consumidor do conhaque de Alcatrão de São João da Barra, néctar dos índios civilizados. Certa vez, foi escalado para cortar a energia elétrica da Fazenda Arvoredo, propriedade de Leonel Mesquita. Era o governo de Monsenhor Walfredo, cuja diretoria da estatal não prezava muito os inadim-plentes com o consumo. Zé Batata conhecia bem o temperamento do dono de Arvoredo e por isso pediu sua dispensa da missão. “Ordem é ordem”, protestou o chefe do escritório local da Cosern. “Por que tu não “vai”?”, ponderou Batata, que nessa hora não tinha nada de índio besta. E aí lá se foi Zé, com um acompanhante para segurar a escada. Quando já estava no topo do poste e olhou para baixo, viu Leonel Mesquita de revólver em punho, ameaçar: ”Desça já, seu f.d.p., ou atiro nas suas pernas!!”. “Pode deixar comigo, Seu Leonel, é ligeirinho, ligeirinho”. Já “aterrissado” de nada adiantaram as suas justificativas. Zé Batata retornou com um sermão de Leonel de que aquilo era perseguição política. Está escrito: Cara pálida nunca se entendeu mesmo com pele vermelha.

03) Outra figura carnavalesca era o saudoso amigo  Diógenes Correia de Almeida. Ele era um carnavalesco atípico, solitário e original. Vestia uma quase sumária roupa feminina para exibir as suas musculosas pernas, com todos os balagandães femininos: seios postiços, batom, rouge, touca e sandálias. O seu passe era disputado pelas Escolas de Samba como destaque nos desfiles. Acabava o carnaval, Diógenes retornava ao trabalho da sua destilaria no fabrico de zinebras, aguardentes, conhaque e tudo o mais que embriaga e faz cair. Entre os anos 50 e 60 foi vereador e protagonista político de inúmeras peripécias. E como tal, foi perseguido pelos donos do poder pela desfaçatez e esperteza de enganá-los como oposicionista, principalmente nas eleições para presidência da Câmara. Dele eu posso dizer o seguinte: Diógenes, que tantos homens foi, na pluralidade de suas dimensões caracterológicas, em mim e em muitos ficou a imagem do folião inigualável, primeiro e único na coragem de se exibir, por tantos anos, vestido de mulher para espanto de uma sociedade reacionária.

04) Natal boêmia dos anos cinqüenta. Natal lírica que se reunia toda no Grande Ponto. A história é desse tempo. Era carnaval no reinado do inesquecível Severino Galvão, amigo de Luis de Barros e Roberto Freire. O saudoso amigo e compositor Dosinho lançava os seus últimos sucessos carnavalescos. E a animação tomava conta da capital que exportava folia. Tanto assim, que os jornais anunciaram a visita do Rei Momo, primeiro e único Severino Galvão, à capital do Oeste – Mossoró, levando toda a sua corte. Não podia haver notícia melhor para o estreitamento das relações entre Natal e Mossoró, pois andavam tensas por causa das estórias que os maledicentes inventavam com os mossoroenses. Tudo pronto, transporte providenciado, discurso afiado do monarca nos trinques, parte a caravana real com confete e serpentina. Mas, em todo reino que se preza, sempre há um vilão à espreita que desmancha prazer e ameaça a coroa. O folião de longo curso Roberto Bezerra Freire resolve bagunçar o coreto e a viagem. Irreverente e brincalhão o engenheiro natalense enviou telegramas urgentes a Mossoró para o prefeito e o delegado de Polícia alertando que “O Rei Momo que está chegando aí é um impostor”. “Inclusive”, prossegue o teor telegráfico, “ele vai insultar Mossoró urinando  na Praça Rodolfo Fernandes”. Continua: “Trata-se individuo perigoso e todo cuidado é pouco. Saudações Roberto Freire”. Ora, o mossoroense habituado, desde a resistência a Lampião, a reagir a provocação, entrou em estado de alerta para não dizer de “sítio”. A chegada que se prenunciava triunfante foi tensa e hostil com todo o destacamento local formado para repelir os embusteiros. Detido o ônibus real do soberano Severino Galvão, ante a sua incontida perplexidade, não precisa dizer que a rainha e os súditos permaneceram prisioneiros no coletivo enquanto o rei momo era conduzido à delegacia para dar explicações sobre a inditosa viagem e o telegrama delator. Só depois de muita negociação diplomática foram liberados. Não havia Telern ainda e o discurso real foi transformado em desculpas intermináveis ante o lamentável incidente que abalou as ligações entre os dois povos.

Valério Mesquita – Escritor, mesquita.valerio@gmail.com 

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