O VELHO BAOBÁ – Luzinete Dantas

O VELHO BAOBÁ –

O velho baobá de Jundiaí, presença soberana à margem da estrada, quase em frente à Escola Agrícola, tombou.

Segundo registros históricos reunidos pelo historiador e pesquisador Anderson Tavares de Lyra, a árvore foi plantada entre 1911 e 1912 pelo italiano Núnzio Giannatásio, engenheiro agrônomo enviado pelo Ministério da agricultura para dirigir a então escola Prática de agricultura, criada no governo de Alberto Maranhão. Desde então, atravessou décadas com uma grandeza silenciosa, resistindo ao tempo, às adversidades e até a escassez de cuidados. Como tudo o que é vivo, também ele tinha um ciclo. E o seu chegou ao repouso.

Sua queda não marcou apenas o fim de uma árvore. Foi como se um antigo guardião da paisagem fechasse os olhos pela última vez. Muitas gerações passaram por ali: algumas souberam parar, erguer o olhar e apreciar sua presença firme, quase protetora; outras, seguiram apressadas, sem perceber que, sob sua sombra generosa, o tempo parecia desacelerar. Ainda assim, o baobá esteve lá para todos, acolhendo viajantes em breves descansos e testemunhando histórias que nasciam e se perdiam com o vento a atravessar seus galhos.

O baobá jamais foi uma árvore qualquer. Originário do continente africano, traz consigo uma força simbólica rara. É chamado de árvore da vida porque guarda água em seu tronco durante as secas, oferece alimento em folhas e frutos e se transforma, muitas vezes, em ponto de encontro e orientação. Onde há um baobá, há uma espécie de permanência que desafia a pressa do mundo.

Talvez por isso sua ausência agora se imponha com tanta delicadeza e, ao mesmo tempo, com tanto peso. O vazio que deixou não é somente um intervalo na paisagem, mas um espaço sensível na memória coletiva. Árvores antigas nos ensinam sem palavras. Falam de resistência, de enraizamento, da paciência necessária para crescer e permanecer quando tudo ao redor se transforma.

Dizem que o baobá cresce devagar, como se soubesse que a verdadeira força precisa de tempo para se tornar essência. Mesmo tombado, ainda nos oferece uma lição tranquila: a vida não se mede pela extensão dos anos, mas pela profundidade do legado que permanece tocando outras vidas.

Que sua lembrança siga habitando aqueles que o contemplaram e até os que, na pressa cotidiana, talvez não tenham percebido sua majestade. Certas presenças não desaparecem. Apenas mudam de lugar e passam a existir dentro de nós.

E talvez, diante da despedida desse velho gigante, nasça também um gesto de continuidade: plantar uma nova árvore. Não para ocupar seu lugar, pois histórias não se substituem, mas para afirmar que cuidar das árvores e da natureza em geral é uma forma inteligente de cuidar da vida e do tempo que ainda virá.

O velho baobá tombou, mas sua sombra permanece estendida sobre a memória. E a memória, quando guardada com afeto, também cria raízes.

 

 

Luzinete Dantas – Membro da Academia Macaibense de Letras e da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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