O TIRANO DO SEGUNDO ANDAR… – Flávia Arruda

O TIRANO DO SEGUNDO ANDAR… –

Ou, poderia ser: Manual prático de como transformar a vida alheia em incômodo pessoal

O dia começa e, lá na cobertura, um cidadão ousa viver. Sim, viver: acorda, caminha, desce sua escada de madeira — aquela que range como qualquer escada de madeira que não foi feita por elfos em silêncio absoluto — e toma um copo d’água. Um gesto simples, quase poético. Mas para o morador do segundo andar, é como se tivesse sido alvejado por um canhão acústico.

O Sr. Intransigente, esse herói da intolerância cotidiana, já está de prontidão. Ele não dorme — ele vigia. Cada passo, cada risada, cada suspiro vindo do andar de cima é imediatamente convertido em boletim de ocorrência no grupo do condomínio. “Hoje, às 22h13, ouvi um ranger. Escandaloso.” “Às 18h47, uma cadeira foi arrastada. Imoral.” “Às 15h02, houve uma comemoração. Crime contra a paz mundial.”

O morador da cobertura, por sua vez, vive sob um regime de censura doméstica. Antes de varrer o chão, precisa consultar o oráculo. Antes de receber amigos, precisa enviar um requerimento. Antes de subir a escada, precisa ponderar se o rangido será considerado terrorismo acústico. A casa deixou de ser lar e virou um campo minado onde qualquer movimento pode ser interpretado como provocação.

A limpeza virou ato subversivo, o som do aspirador de pó é tratado como se fosse uma sirene de ataque aéreo. Imaginem: a água escorrendo no chão é vista como um dilúvio pessoal. O Sr. Intransigente não quer vizinhos — quer monges tibetanos em voto perpétuo de silêncio.

E o mais interessante de tudo isso: ele exige respeito, mas não respeita ninguém. Quer paz, mas planta guerra. Reclama do barulho, mas faz mais barulho com suas mensagens do que uma escola de samba em ensaio técnico. É o paradoxo ambulante da convivência moderna: o vizinho que quer viver sozinho num prédio coletivo.

Enquanto isso, o morador da cobertura resiste. Vive com dignidade, mesmo sendo tratado como um invasor. Não faz festas rave, não toca bateria às três da manhã — apenas vive. E isso, para o tirano do segundo andar, já é demais.

Essa crônica é para todos que já foram acusados de viver. Que já se sentiram culpados por andar, rir, respirar. Que já pensaram em instalar carpete, almofadas nas paredes e silenciadores nos sapatos só para não incomodar o fiscal da paz eterna.

Que saibam: o ranger da escada é poesia. A risada é resistência. E a vida, mesmo com vizinhos difíceis, continua sendo um espetáculo — com direito a aplausos, mesmo que o segundo andar não aprove.

 

 

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, crônicasflaviaarruda@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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