O PIRÃO –

Nos meados do século passado, em Nova-Cruz não havia água, luz, nem hospital.

Certo dia, Seu Silvino, 54 anos, dono de uma mercearia, sofreu uma queda e foi levado para Natal, para ser socorrido. O acidentado quebrou a clavícula e sofreu uma fratura que comprometia o funcionamento da veia Aorta. O diagnóstico, na época, foi feito através de exame clínico.

O acidentado voltou para Nova-Cruz, com um péssimo prognóstico. Devido ao comprometimento da veia Aorta, recebeu recomendação médica, de permanecer em repouso absoluto e manter uma dieta leve, à base de leite, sucos e frutas.

Ao se ver obrigado a permanecer deitado e proibido de comer o que gostava, o homem entrou em depressão. Passou a se sentir muito fraco, chegando a sofrer vertigens esporadicamente. A fraqueza, ele atribuía à dieta exagerada, prescrita pelo médico, a qual estava seguindo religiosamente. Dois meses depois, Seu Silvino começou a definhar. Bem mais magro e triste, sentia suas forças irem embora, e a fraqueza se acentuou.

Num sábado pela manhã, o doente, chorando, chamou a esposa e implorou:

– Régia, eu sinto que estou no fim. Mas não quero morrer de fome! Quero lhe fazer um pedido:

– Manda a empregada preparar uma perua torrada, com muita graxa, pirão e arroz mole bem temperado! É o que eu quero almoçar, nem que seja o meu último almoço.

A esposa, submissa ao marido, mandou que a empregada fizesse o almoço, seguindo sua recomendação. O doente comeu exageradamente, até matar a fome. Como diz o ditado popular, “matou quem estava lhe matando.”

De barriga cheia e bem alimentado, Seu Silvino chegou a suar frio. Em seguida, adormeceu na sua rede no terraço e acordou no começo da noite, sentindo fome novamente. Chamou a esposa e ordenou:

– Mulher, manda esquentar o que sobrou do almoço. Não se esqueça do pirão de perua.

E lá se foi Dona Régia esquentar a comida, com a qual o marido se fartou mais uma vez.

Depois de dois meses, praticamente, de “fome”, nesse sábado, pela primeira vez, Seu Silvino se alimentou com gosto. Literalmente, tirou a barriga da miséria. Comeu até se fartar.

Na sua rede, dormiu como um rei e acordou na manhã seguinte, sentindo-se outro homem. Suas forças voltaram e a disposição para trabalhar também. A fraqueza desapareceu completamente.

O comerciante não quis mais saber da dieta prescrita pelo médico.

Com o tempo, a fratura se consolidou, com remédio do mato: Uma pasta feita de arnica com casca de PAU D’ARCO ralada.

Aos poucos, a vida de Seu Silvino voltou ao normal, sem qualquer sequela do acidente. Voltou a ser um homem corado e saudável, com saúde para dar e vender. Graças à comida caseira a que estava acostumado.

Nessa pisada, Seu Silvino morreu com quase 100 anos.

Violante PimentelEscritora
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