A mulher estranhou a ordem do marido, transmitida pelo empregado, pois nunca havia se aproximado do molosso. Nunca havia tido vontade de acariciá-lo, nem de montá-lo. Essa ordem era desnecessária, e só serviu para deixar Elvira irritada.
Mal o empregado pegou a estrada de volta, a mulher teve a curiosidade de se aproximar de Zorro, o molosso. Pegou pedaços de bolo para distribuir com todos os cachorros, coisa que nunca fizera antes. Ficou admirada com a alegria deles, balançando a cauda, num sinal de agradecimento pela comida recebida. Gratificada com a receptividade dos cachorros, Elvira repetiu a distribuição de pedaços de bolo, até notar que eles estavam saciados. Não sentiu nenhuma agressividade por parte dos animais. Pelo contrário, eram todos muito dóceis, inclusive Zorro, o molosso, que lhe despertou um carinho especial. Elvira sentou-se nas suas costas, apertando-as com os quadris. De repente, o animal se enfureceu , arreganhou os dentes e cravou-os no seu braço direito. Outros empregados da fazenda dominaram o molosso, para que largasse o braço de Elvira. O sangue jorrou e o estrago foi grande, sendo preciso chamar um médico para socorrê-la.
Ao retornar da viagem, o fazendeiro encontrou a esposa de cama e muito abatida, com um grande curativo no braço.
Ao vê-lo, a mulher falou revoltada:
– Agradeço a você esse vexame que eu passei! Se eu não tivesse recebido aquela ordem de não me aproximar do molosso, jamais isso teria acontecido. Eu nunca teria tido a ideia de montar o Zorro!!!
Intrigado com o que ouviu, o fazendeiro procurou Sávio, para esclarecer essa história. O homem, ao ver o patrão, procurou logo se justificar:
– O senhor mandou ordenar à patroa que não recebesse o padre em sua casa, na sua ausência. Como eu sei que o costume das mulheres é fazer o que lhes proíbem, eu mudei o recado. Se eu tivesse dado o recado certo, ela teria introduzido o padre na sua casa, e só Deus sabe o que teria acontecido! Eu quis evitar que o senhor corresse o risco de ser corno. Com a proibição de se aproximar do molosso, ela sentiu vontade de acariciá-lo e até de montá-lo, o que resultou na fúria e mordidas do animal.
José Beltrão ficou pensativo e viu que Sávio, seu fiel escudeiro, tinha razão. O seu verdadeiro recado poderia ter provocado coisa pior…