O MAIOR ABANDONADO –

A festa na casa de Rita e Eudo, em Nova-Cruz (RN), num dia de sábado, começou ao meio dia. Era o aniversário do dono da casa. Vários amigos e familiares foram convidados.

Dona Leide e Seu Vítor, exímio violonista, tinham chegado de Natal, para prestigiar o aniversário do filho.

A família gostava muito de música. Quase todos os membros tocavam algum instrumento e cantavam bem, como amadores.

No alpendre da casa, formou-se uma animada roda de amigos, com violão, cavaquinho, sanfona, pandeiro, afoxé e tantã.

Logo começaram as rodadas de cerveja e tira-gostos, muita música e muita animação.

Depois do almoço, a farra continuou, entrando pela noite. A turma demorou muito a dar sinal de cansaço. Aos poucos, alguns convidados foram se despedindo, mas a música custou a parar. A bebedeira tinha sido pesada e o sono estava chegando.

Altas horas da noite, ainda estavam no alpendre, conversando, o amigo Carlito, o aniversariante e o seu pai. Os três, mesmo exaustos, ainda tomavam cerveja.

Entretanto, pela madrugada, já cansados de beber, os três ficaram sem assunto e o astral baixou.

Antes de se despedir, o amigo Carlito, completamente embriagado, resolveu “fazer uma fala.” Dizendo-se emocionado e feliz, por estar ali ao lado de dois grandes amigos, pai e filho, o “orador” assim se expressou:

– Não tive a felicidade de conhecer meu Pai! Como eu gostaria de ter convivido com ele! Mas nem sequer me lembro do seu rosto, pois eu só tinha três meses quando ele morreu!

Que coisa linda, pai e filho, grandes amigos e bebendo juntos! Como esta cena que estou vendo me comove! Ô coisa do meu agrado! Foi a cena mais bonita, que encontrei no meu caminho! Como eu tenho inveja de quem tem pai vivo!

A emoção também dominou Eudo e o pai, e os três amigos choraram abraçados. Pai e filho abriram as torrentes, em solidariedade à orfandade do amigo Carlito.

Controladas as emoções, o aniversariante também resolveu falar, para consolar o amigo órfão, que, por sinal, já tinha 50 anos de idade:

– Carlito, a partir de agora, quero que você me chame de PAPAI…

O órfão se abraçou com seu novo pai, aceitando a simpática proposta. Em lágrimas e com voz pastosa, de quem passara o dia bebendo, falou:

– A “BENÇA”, PAI!

Por coincidência, Eudo, naquele dia, estava completando 50 anos, a mesma idade do amigo Carlito. Jamais poderiam ser pai e filho.

Enquanto os três amigos choravam de emoção, as três esposas, que haviam escutado a conversa dos bêbados, não paravam de rir.

A cena ficou na história.

 

Violante Pimentel – Escritora

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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