O HOTEL DO TREM –

Istambul – onde estivemos novembro passado numa expedição organizada pela Sunline, excelente agência de viagens da amiga Carol Costa – é uma cidade maravilhosa. Istambul tem, antes de qualquer coisa, a feliz característica de estar na Europa (pelo menos sua parte mais turística) e ser a capital de um país de islamismo moderado (a belíssima Turquia), o que faz dela uma perfeita porta de entrada para esse mundo do Islã e do Oriente, que, para nós, ocidentais e cristãos, é ainda tão desconhecido.

Outrora chamada, sucessivamente, de Bizâncio e de Constantinopla, antiga capital do Império Bizantino ou Romano do Oriente e, depois, do Império Turco Otomano, a Istambul de hoje tem, para o turista, como herança dessa riquíssima história, mil e uma atrações. Ali estão o Estreito de Bósforo, o Chifre de Ouro, a Basílica (hoje museu) de Santa Sofia, as Cisternas da tal Basílica, a Igreja de São Salvador in Chora, a Mesquita de Suleiman, a Mesquita Azul, o Palácio Dolmabahçe, a Torre Gálata, o Bazar das Especiarias, o Grande Bazar e por aí vai. Tudo lindíssimo e fácil de visitar. Sobre essas muitas atrações, eu darei as minhas impressões na semana que vem. Prometo.

Hoje, pegando uma carona no artigo da semana passada, que girou em torno da minha amiga Agatha Christie (1890-1976) e do seu romance “Assassinato no Expresso do Oriente” (“Murder on the Orient Express”), vou me dirigir mais especificamente aos amantes do turismo literário. A razão é fácil de adivinhar: assim como na vida real, no romance da minha amiga, Istambul é ponto de partida e “protagonista” da história/estória do trem “Orient Express”.

Na vida real, a história do Expresso do Oriente (“Express d’Orient” ou “Orient Express”) retroage ao fim do século XIX, sob a batuta da francesa “Compagnie Internationale des Wagon-Lits”. Embora tenha tido sua rota (ou rotas, já que chegou a haver, paralelamente, mais de uma) alterada algumas vezes, no seu auge, lá pela década de 1930, o serviço ligava Paris (com uma extensão até Londres) a Constantinopla/Istambul. O serviço/trem era luxuosíssimo, frequentado pelas celebridades e aristocratas de então. Aliás, em Istambul, quem quiser pode visitar a estação de trens onde originalmente parava o Expresso do Oriente. Oficialmente inaugurada em 1890 (mas já em utilização desde o ano anterior), hoje chamada de “Sirkeci Station”, quase na margem do Chifre de Ouro, bem pertinho das muitas balsas que atendem à região, é de facílimo acesso. Naturalmente, funciona lá hoje um museu, contando essa e outras histórias de trens, além de um bom restaurante, não coincidentemente chamado de “Orient Express”. Para além da sua arquitetura, sua atmosfera, evocativa desse passado, é um encanto.

Entretanto, relacionado ao “Orient Express” e à amiga Agatha Christie, a coisa de que mais gostei em Istambul foi visitar o “Pera Palas Hotel”. Para vocês terem uma ideia do que ora trato, eis o que diz o “Guia Visual Folha de São Paulo – Turquia” (PubliFolha, 2014) sobre o tal hotel: “Em todo o mundo há hotéis que alcançaram a condição de lendas. Um deles é o Pera Palas, inaugurado em 1982 para servir aos passageiros do Orient Express. Depois de extensa reforma, o hotel ainda evoca imagens de porteiros uniformizados e destinos exóticos como Bagdá. O bar Grand Orient serve coquetéis sob os candelabros originais, enquanto a pâtisserie oferece bolos irresistíveis em ambiente elegante. Pode-se programar visita a um quarto usado pela escritora inglesa Agatha Christie”.

É verdade que nossa chegada ao “Pera Palas Hotel” não foi fácil. Por sugestão minha, viemos caminhando, do Palácio Dolmabahçe (que fica na região/bairro de Besiktas), margeando o Bósforo, até que, quebrando à direita, subimos em direção ao hotel, que fica na região/bairro de Pera, no distrito/colina de Beyoglu. Isso mesmo: subimos. Para desgosto de umas senhoras, já meio cansadas, que só reclamavam de tão saudável aventura. Tive a solidariedade apenas de um cão de rua (anoto: os cães de rua de Istambul são todos registrados com um anel na orelha e, assim, devidamente cuidados) que, não sei bem razão, nos seguiu o tempo todo e me dava uma certa segurança contra as verdadeiras feras.

Mas valeu a pena. Primeiro porque aquela região, muito próxima à Torre de Gálata, é fantástica, sobretudo a rua Istiklal Caddesi, só para pedestres, cheia de comércios abertos até tarde da noite e coração do bairro. No mais, tudo o que se diz do hotel é verdade. Como diria Gonçalves Dias (1823-1864), pudera eu ter o talento do autor de “I-Juca-Pirama”, “meninos, eu vi!”. Vi um hotel que marca uma época, restaurado em seu grande esplendor. É uma volta ao passado. Ao tempo das viagens de Agatha Christie. Das estórias de Graham Greene (1904-1991), que também romanceou o “Trem de Istambul”. Da realeza europeia, dos chefes de Estado, dos diplomatas, dos milionários, dos grandes criminosos e das celebridades em geral, todos tomando o exótico trem. Do apogeu “Oriente Express”. Curti as renovadas instalações, vi exposição de objetos da minha amiga Agatha Christie e saquei muitas fotos, inclusive do “Agatha Restaurant”, feliz como pinto no lixo. Só me arrependi de não ter ido ao banheiro, mas isso é outra história.

Por fim, descobri que, nos dias seguintes à nossa visita (mais precisamente de 16 a 18 de novembro de 2017), haveria no “Pera Palas Hotel” um festival literário, com várias atrações, desta vez dedicado ao “Agente 007”. Decidi voltar lá logo no outro dia, claro. Afinal era Bond, James Bond, o herói do meu amigo Ian Fleming (1908-1964), outro que foi hóspede do glamouroso hotel. Mas não me deixaram (e grupo é grupo). Mesmo eu dizendo – e insistindo – que em Londres já havia trabalhado como agente secreto, sempre a serviço da Tribuna do Norte.

 

Marcelo Alves Dias de Souza – Procurador Regional da República, Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e Mestre em Direito pela PUC/SP

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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