O FREVO LÍRICO –

Arrodeia-se o período do carnaval. Principalmente no Nordeste, as clarinadas anunciando que Momo está mandando são secundadas por boa carga de frevo. Essa é a música mais emblemática desse período festivo. Se é fácil e trivial ser ouvida, é difícil de ser dançada e mais complicado ainda de ser tocada com perfeição.

Muitos entendem o frevo unicamente como a execução acelerada de acordes, formulada com instrumentos de sopro e pelo baticum de caixas de percussão. Mas nem só de fortes pulmões e batidas frenéticas em um bumbo se faz um frevo decente. Claro que o clima de euforia próprio do Entrudo favorece ao reclamo de uma trilha sonora inquieta. Porém, essa há que ser feita através do encadeamento agradável de sons, que conquiste e envolva desde o conhecedor de arte musical até o mais despreocupado dos foliões.

Além dos frevos arrebatantes (aqueles que levam os passistas às ações mais elaboradas de “dobradiça”, “ferrolho”, “tesoura” etc), existem os dolentes, que trabalham sentimentalidades, e cujo ritmo enseja um bambolear dos passistas em coreografia delicada. Digo agora do frevo lírico. Usado geralmente para embalar os desfiles ou apresentações dos blocos mais esmerados, tem uma linha melódica  saudosista e romântica. Exalta valores como o amor, a amizade, a lealdade e a justiça. É executado por grupos de vozes (unicamente ou predominantemente femininas), acompanhados por naipes de pau-e-corda (violão, viola,  banjo, bandolim, cavaquinho, violino,  viola de arco etc.) e discreta percussão (tarol, surdo, caixa e pandeiro), contando por vezes com o auxílio luxuoso de um instrumento de sopro para contraponto (trompete, tuba, bombardino ou sax). O vocal atua em uníssono (sem divisão em primeira voz, segunda voz…) e o falsete é recorrente.

Na minha opinião, o melhor grupo em atuação para esse tipo de música é o Coral Edgard Moraes, formado basicamente por filhas e netas daquele pranteado compositor. E a melhor orquestra desse frevo em desfile aberto, arrastando multidões “pelas ruas repletas de lá” (como está no verso de Antônio Maria), é a do Bloco da Saudade,  “que assim recorda tudo que passou”, como diz a poesia sonora do já referido Edgard.

Paradoxalmente, em uma festa de tanta alegria, difícil é não deixar escorrer pelo menos uma lágrima de emoção quando se escuta um frevo lírico.

IVAN LIRA DE CARVALHO – Juiz Federal e Professor

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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