O CHÃO CENTENÁRIO DO ALECRIM – Ney Lopes

O CHÃO CENTENÁRIO DO ALECRIM –

Comemorado os 110 anos do bairro do Alecrim, em Natal, onde nasci e passei a adolescência. O meu pai, Josias, veio do Açu e instalou a alfaiataria Globo, na avenida um. Morávamos na mesma rua, número 363, onde residiam as famílias de Sinval Poti, Dr. Vicente Dutra, Dr. Hildebrando Matoso, Paulo Bulhões, Coronel Juvino Lopes, capitão Gurgel, José Fernandes, o casal Wellington e Etelvina, Marcilio e irmãos, Bráulio da movelaria (pai do escritor e jornalista Alex Nascimento), Miguel do Armazém Estrela, Isaú Vilela, Pedro Costa e outros.

Comerciantes I – Povoam a memória alguns comerciantes que conheci e admirei no bairro, quando ainda usava calças curtas. Eram eles Álvaro Navarro, Horácio, Celso Dutra, “Seu” Limeira (dono da primeira farmácia de manipulação do bairro), Wober Lopes, “Rubens Massud, “seu” Artur Cortez, Geraldo de Oliveira, “seu” Perigo (loja de miudezas), “seu Bilé” (grande figura humana e amigo do meu pai), “seu Odilon”, “seu Juvenal Faria” (pai de Osmundo Faria – que teve panificadora no Alecrim – e avô do ex-governador Robinson Faria, que menino era levado pelo pai para atender no balcão da padaria)..

Comerciantes II – E mais:  “seu Chiquinho” (dono de “bodega” tão sortida quanto alguns minimercados de hoje), “seu” Geraldo Sarmento (pai de Marco Aurélio de Sá), Araújo Freire (do Bazar Doméstico), Marcílio Furtado (loja de móveis, líder do comércio e deputado estadual), Luís de Barros (proprietário do Cinema São Luiz), dona Dondon (da Casa Azul), Euclides do Vidraceiro do Norte, Leopoldo da Câmara, Dom Bosco (tecidos e variedades), Leonel Leite (casa de ferragens), Casa Sindá, Isaías Macedo (empresa de ônibus), Bráulio Luna (marmoraria Penedo) e Casa Gondim (couros).

Jornalistas – Os jornalistas Benivaldo Azevedo, Berilo Wanderley e o seu pai Rômulo Wanderley eram moradores do Alecrim. Berilo mantinha coluna sobre cinema na TN, que me orientava na frequência ao São Pedro e São Luiz, cinemas que funcionavam no bairro, exibindo a fantasia fugaz de romances (Casa Blanca; E o Vento Levou), duelos (seriados de caubóis: Rod Cameron e outros) e épicos inesquecíveis (Quovadis).

Trabalho – Comecei a trabalhar cedo na alfaiataria do meu pai. Alinhavava as “provas” dos paletós e entregava o tecido das calças já cortadas nas residências das “calceiras” (costureiras de calças de homem) para serem confeccionadas.

Missa – Ao recordar a paisagem sentimental do Alecrim, revivo a matriz de São Pedro, a missa dominical, com a figura do padre Martinho falando aquele sotaque polaco, gestos largos, voz aguda, preso aos dogmas e a doutrina católica.

Comícios – Lembro JK em discurso na Praça Gentil Ferreira, ao lado do deputado Teodorico Bezerra. Em 1958, contagiado pelo micróbio da política, acompanhei Aluízio Alves, Tarcísio Maia e Dix Huit, na campanha um “amigo em cada rua”. A principal avenida – Amaro Barreto – no período do carnaval era o “corredor da folia”. Por lá desfilava Severino Galvão, figura memorável, vereador e eterno “Rei Momo” de Natal.

Meu pai e Nevaldo – Presenciei fenômeno semelhante à revolução industrial do século XIX, quando os teares mecânicos substituíram a mão de obra humana. A Alfaiataria Globo, do meu pai, tinha excelente clientela na matriz e na filial do Grande Ponto, em frente à “loja Seta” de Nevaldo Rocha. Os dois eram amigos.

Transição – No início da década de 60 surgiu a roupa de fábrica. Foi a derrocada da Alfaiataria Globo, que empregava mais de 30 operários. Alguns amigos aconselharam a montagem de uma indústria de roupa pré-fabricada.   Para instalar a fábrica, o meu pai teria que recorrer a banco e a sócio. Humilde e leal com os amigos temia não poder pagar os compromissos em dia e sofrer ingratidões de sócios. A Alfaiataria Globo fechou, por falta de clientes.

Sanderson – Lembro a crônica do notável escritor e jornalista Sanderson Negreiros sobre as manhãs do Alecrim, que me recordam nos anos 60 o posto do então SAPS (Serviço de Alimentação da previdência Social), onde entrava em filas intermináveis para comprar o pão mais barato.

Cemitério – Indispensável a  menção ao Cemitério do Alecrim, onde jazem tantos entes queridos. Em 1959 lá deixei a minha avó Idalina, suave, santa, abnegada. Em 1980, a figura humana e humilde do meu pai, Josias. De lá para cá, outros tantos familiares e amigos. Sanderson definiu bem o Cemitério do Alecrim, como um lugar onde “os epitáfios esplendem ao sol de verões penitentes e invernos dourados pela lembrança”.

Beijo – Relembro o pioneirismo dos advogados José Augusto Delgado e Diógenes da Cunha Lima, que recém-formados, instalaram escritório no Alecrim.

Natal – O Alecrim como disse Sanderson, “transcende o cheiro silvestre” da planta que lhe deu o nome. Sem este pedaço de chão, Natal certamente seria menor.

 

 

 

 

 

 

Ney Lopes – jornalista, advogado de ex-deputado federal, nl@neylopes.com.br

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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